Fotografia da minha autoria

«Uma história doce contada pela voz de um 

adulto que fala pela criança que foi um dia»

Possíveis gatilhos: abandono, negligência, suicídio, luto

A sabedoria de José Saramago levou-o a escrever, n' A Viagem do Elefante, que «sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam», mesmo que isso implique um desvio na nossa rota; mesmo que nos transporte para um contexto que nunca seria o nosso, caso a tragédia não fizesse parte da história, tal como aquela que conhecemos no livro de Maria Isaac.

«De onde vim? Ninguém sabia dizer»

Onde Cantam os Grilos é o relato de uma das personagens mais especiais com quem me cruzei neste meio literário: o Formiga. Transportando-nos para a Herdade do Lago e para o seio da família Vaz, sentimos o peso do abandono, de sentimentos contraditórios, de sensações proibidas e dos segredos que se silenciam a todo o custo. Além disso, envolve-nos numa aura enigmática, na qual as lendas e as maldições assumem protagonismo, despoletando uma fonte inesgotável de mistérios. Mas é também o tom constante de mau presságio que prende e impulsiona a nossa vontade de desvendar o que parece ficar sempre por partilhar.

«A casa estava a ficar vazia e sentia-me um bocadinho como ela»

A narrativa sustenta-se num ritmo mais lento, que considero fundamental para desconstruirmos a dinâmica familiar - tão interessante e tão frágil -, a chegada de um novo elemento, os confrontos emocionais e o fim da inocência. Pela voz de um adulto, recuamos à sua infância e a um lugar que foi colo, que foi casa e que foi a fronteira de tudo aquilo que conhecia, antes de ser obrigado a levantar voo. E, por isso, há uma culpa que ainda necessita de ser expiada, para que se liberte de fantasmas do passado. Porque há silêncios que nos consomem e todos precisamos de um pouco de empatia.

«Havia, obviamente, um bocadinho de lenda para o justificar»

Com uma escrita sublime, existe um vínculo proximal e familiar nos contornos deste enredo, transmitindo-nos a doce ilusão de serem também nossas as aventuras representadas. E, através de personagens peculiares, acompanhamos o melhor e o pior da humanidade, refletindo sobre a linha ténue que separa a verdade da falsidade. Em simultâneo, como nada é o que aparenta ser, mantém-nos vigilantes e prova-nos a importância de sermos prudentes e menos impulsivos, sobretudo, nos julgamentos morais, porque a descontextualização dos factos e as associações erradas às quais atribuímos voz podem ser prejudiciais.

«Algumas pessoas veem melhor no escuro, outras até vivem 

melhor no escuro e é lá que gostam de passar o seu tempo»

Onde Cantam os Grilos é uma história terna e dolorosa. Embora manifeste apontamentos leves e cómicos, espelha uma realidade bastante amargurada, porque há segredos demasiado poderosos. Aqui, compreendemos que o nosso mundo não se delimita por coordenadas geográficas, mas pelas pessoas que o atravessam - algumas fazendo morada em nós. E, ao despedirmo-nos da Herdade do Lago, é evidente o desgosto e tudo aquilo que deveria ter sido, mas que acabou por ruir.

«Eu não aguentava ouvi-lo mais, porque só me fazia lembrar do tanto que eu poderia ter feito»

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