Min e Ed ficaram juntos por pouco mais de um mês. Sua história começou em 5 de outubro e acabou em 12 de novembro. Simples assim, e disso sabemos desde o começo. É dezembro, e Min finalmente se sente preparada para expurgar Ed de sua vida. Um processo difícil e doloroso, pelo qual quase todas as adolescentes, inclusive a adolescente que eu fui, conheceram.
Sua maneira de deixar Ed no passado é um tanto dramática, como os filmes antigos de que gosta. Composta de uma longa carta e objetos significativos, Min se desliga de um período muito marcante de sua vida, ainda que pareça curto.
Em Por isso a gente acabou acompanhamos a carta que Min escreve para Ed. E tiramos, como ela, um a um, os objetos da caixa de recordações. Seria fácil dizer que Min, “das artes”, e Ed, cocapitão do time de basquete, vêm de mundos diferentes, que fazem parte de espectros opostos do complicado equilíbrio de tribos desse universo selvagem que parece ser o Ensino Médio americano.
Mas sabemos que não é exatamente assim que as coisas funcionam. E Daniel Handler também sabe. E é por isso que o livro, e a carta, funcionam. Min e Ed não são simples estereótipos, são pessoas. São jovens e se apaixonaram. Passaram bons e maus momentos, juntos. E acabou. Os comos e os porquês estão representados por objetos simples, quase prosaicos, ilustrados por Maira Kalman, cuja arte complementa as palavras do autor.
A história do casal se mescla a uma busca romântica por uma atriz de cinema mudo. Esta busca nos ajuda a determinar a personalidade da protagonista, um tanto sonhadora, bem como o tamanho de sua decepção. O fim deste relacionamento acaba sendo uma metáfora da dura realidade de “virar gente grande”.
E a voz desta protagonista muda conforme a carta segue. Aos poucos ela vai mostrando um discernimento maior, seja ao analisar seu relacionamento com Ed ou mesmo com seus amigos, com Al e com a cunhada, a quem admira. Al e Joan, especificamente, são cativantes e únicos, cheios de idiossincrasias com as quais me identifiquei quase de imediato.
O fato dos filmes e músicas serem inventados, ao contrário do que aconteceu com a Anica, não me atrapalhou. Talvez por já conhecer as razões do autor. Entendi esta intenção de dar a esses filmes e músicas, tão significativos para a personagem, um ar de magia e mistério. Somos levados a fantasiar sobre as mídias, e assim toda a narrativa ganha um jeito de um filme noir.
Apesar de direcionado a um público mais jovem que eu, gostei bastante do trabalho de Daniel Handler. Ele conseguiu captar a essência não só de uma mulher, mas de uma adolescente de 16 anos, com sentimentos à flor da pele e de coração partido. E consegue isso aparentemente sem esforço, de maneira natural, quase espontânea. Se eu tenho uma frustração para compartilhar, é o fato de não poder ver as reações do Ed ao ler esta – longa – carta.
Por isso a gente acabou
Daniel Handler
Ilustrações: Maira Kalman
Tradução: Érico Assis
368 Páginas
Preço sugerido: R$ 44,00
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