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Out21

Maria do Rosário Pedreira

«Uma vez em que o avô me mandou comprar um pacote de esparguete [à loja do senhor Júlio], foi a mulher dele quem apareceu. Não tinha acabado de mastigar e de vez em quando uma espinha aflorava-lhe aos lábios e voltava para dentro, como um priosioneiro a fazer o que podia para se ver em liberdade. Tinha os olhos muito abertos. Sem mais, avançou para mim.

– Diz ao teu avô que são horas de comer – vociferou.

E disse ainda, aos gritos, que era preciso parar com aquela palhaçada. Que era todos os dias a mesma coisa. Queria comer em paz. Não me voltava a abrir a porta nem que estivesse a noite inteira a bater.

Quando acabou, as espinhas não estavam lá: tinha-as mastigado no meio dos insultos.»

Hugo Mezena, Gente Séria, Planeta, 2018