Verde é a cor mais quente
sustentabilidade urbana, arquitetura, paisagismo, crise socioambiental, greenwashing
Enquanto isso, árvores e plantas alimentícias continuam marginalizadas ou excluídas de vários projetos “inovadores”. Gustavo Nagib* Muito se fala de verdejar as cidades. Novas concepções estéticas florescem com vigor, criando paisagens verdes efêmeras sobre muros acinzentados perenes nas mais diversas metrópoles. Contudo, muitos destes projetos parecem estar mais preocupados com a forma do que com o conteúdo: eles podem ser capazes de produzir paisagens urbanas inéditas, mas são pouco engajados em materializar soluções para o atual quadro de crise socioambiental. Enquanto isso, árvores e plantas alimentícias continuam marginalizadas ou excluídas de vários projetos “inovadores”. Há quem denuncie tais procedimentos verdejantes como “greenwashing” (“banho verde”). É por aí, uma onda verde que inunda o campo de visão com estruturas temporárias de elevado consumo de água e energia e cujas plantas utilizadas são provenientes de sistemas de produção regados a fertilizantes químicos e agrotóxicos. Enfim, formas que não alteram as estruturas causadoras do desequilíbrio climático e que contribuem para gerar confusão teórico-metodológica sobre os caminhos para a sustentabilidade urbana. Muros verdes na Avenida 23 de Maio Foto: Reprodução/Folha de S.Paulo. Isto não se trata, porém, de um parecer contrário à valorização estética proporcionada pelas novas técnicas de verdejar as cidades, ao contrário, trata-se de uma chamada à reflexão crítica sobre o processo de produção e transformação do espaço urbano. É bastante chocante quando novos (e velhos) projetos arquitetônicos, com reconhecido valor estético, suprimem ou omitem as árvores de suas fachadas e passagens principais com a justificativa de que elas esconderiam a beleza emanada pelos edifícios erguidos. Tampouco soa convincente que os jardins fiquem feios quando abrigam plantas alimentícias. Não se trata (apenas) de romantizar as árvores, a flor do quiabo ou o perfume do manjericão, mas de minimizar a vaidade humana. Ainda há quem ache que as árvores ocultam a arquitetura arrojada dos grandes monumentos ou que elas findam por atrapalhar a circulação humana nas áreas mais adensadas, assim como ainda há quem ache que as plantas alimentícias não servem para embelezar os jardins urbanos. Ainda há quem ache. Ainda, mas até quando? *É geógrafo, Doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e poeta. Autor das obras “Amar: verbo indefinido” (Mini, 2015) e “Agricultura Urbana como Ativismo na Cidade de São Paulo” (Annablume, 2018)
Texto originalmente publicado em Revista Fina