No aclamado Marrom e Amarelo, romance finalista do Prêmio Jabuti, Paulo Scott expõe contradições de um Brasil dividido. Em entrevista, o autor comenta a situação do país, os rumos da literatura contemporânea e sua relação com a crítica e os leitores.
Laura Pilan e Giovana Proença
Marrom e Amarelo, do escritor gaúcho Paulo Scott, é um romance sobre confrontos. Dos personagens, demanda-se uma escolha: entre a prática e a teoria, entre o ataque e a defesa e, especialmente, entre o que foi deixado para trás e o que há de vir pela frente. Para o leitor, não é diferente: precisa enfrentar as ruas de sua cidade, as pessoas que encontra todos os dias e o próprio reflexo no espelho.
A narrativa é afiada em pontuar um momento e explorá-lo. A experiência de leitura proporciona uma constatação surpreendente: os eventos retratados em Marrom e Amarelo não estão distantes de nós. O acontecimento escolhido como ponto de partida é a formação de uma nova comissão – instituída pelo novo governo do Brasil – com o propósito de discutir as cotas raciais nas universidades. O objetivo seria a criação de uma espécie de software responsável por identificar e agrupar os fenótipos da população e, assim, determinar quem possui o direito às vagas oferecidas – um “tribunal racial” eletrônico.
Em oposição ao programa de computador proposto, o romance enfatiza a subjetividade de seus personagens. Marrom e Amarelo oferece um mergulho profundo na interioridade conflituosa de Federico, que deixou os subúrbios de Porto Alegre e iniciou sua participação no ativismo das questões raciais. Em seu passado, está a presença latente de sua família e o rastro que a discriminação pintou em suas memórias. Como bagagem, Federico carrega raiva, relacionamentos amorosos inacabados e dificuldades de sustentar um posicionamento eficiente. Sua principal inquietação está no desejo de reivindicar sua identidade racial – enquanto homem negro de pele clara – em uma sociedade que o lê como branco.
A participação de Federico na comissão é bruscamente interrompida por um telefonema. Seu irmão – Lourenço – comunica que a filha – Roberta – foi presa durante uma manifestação pela ocupação de um prédio público por pessoas em busca de moradia. O principal agravante é que a jovem portava uma arma de fogo – que somente os dois irmãos conhecem a origem.
A emergência súbita do passado cria um dos movimentos mais interessantes do romance, uma vez que a juventude na periferia de Porto Alegre se entrelaça e se intercala com o presente. Os episódios formam uma teia intrincada de causas e consequências na medida em que a história é narrada. Cada um dos acontecimentos é responsável por retroalimentar um ciclo de ódio, ressentimento e frustração. Quando tudo é colocado em contexto, a gravidade dos fatos cresce exponencialmente – regredir nas lembranças de Federico é adquirir conhecimento da importância desses fatos. “O passado é um espaço onde podemos ficar presos para sempre”, alerta Scott sobre o perigo das reminiscências.
Marrom e Amarelo também é um romance sobre retornos: o regresso de um sujeito para a sua cidade, seu bairro e para as pessoas que sustentam a sua luta – uma comunidade que Federico acredita defender, mas que habitam um cenário que ele abandonou há muito e, agora, desconhece. O protagonista só adquire a percepção de sua fuga quando se depara com a possibilidade de voltar para casa.
A construção de uma identidade é outro grande impasse – que, por sua vez, afeta os dois irmãos. Lourenço, negro de pele retinta, precisa lidar com o constante apagamento de sua própria ancestralidade, alimentado não só pelos séculos de escravidão – que formam a base da história do país –, mas também pelo racismo que se perpetua. Enquanto isso, Federico permanece em uma espécie de não-lugar – que contamina e dificulta todas as esferas de sua vida. Dentro de sua comunidade, a pele clara é vista como um “passe-livre” e ele é considerado alguém que nunca compreenderá plenamente as dores e violências do preconceito racial.
A discriminação é observada através das lentes de um protagonista que se enxerga como um homem negro. A narrativa de Marrom e Amarelo coloca o dedo sobre uma ferida muito antiga e expõe as dificuldades do brasileiro em aceitar e buscar a própria identidade. O principal obstáculo para que o povo reconheça a sua herança étnica surge de políticas públicas cruéis do governo do país que, desde o princípio, incentiva o branqueamento de sua população e a extinção de uma parte que reconhece a sua negritude. Por meio de Federico e Lourenço, mostra-se que negar a própria identidade é uma forma de submissão e aceitação da ótica perversa de uma elite que não admite resistência. “O Brasil é um país com dificuldades enormes de se olhar no espelho”, afirma Paulo Scott. Neste romance, o autor intima que o brasileiro se olhe no espelho e tome uma atitude sobre o que vê.
Os dilemas de Federico são expostos de uma maneira que não é óbvia e nem panfletária. O romance explora, através dos obstáculos para a construção e o estabelecimento de uma identidade, as diferentes armas e crueldades das quais o racismo se beneficia. Em um país marcado pelas desigualdades, Scott considera que parte da tragédia “é que não conseguimos enxergar minimamente o quanto essa realidade é decisiva para o insucesso de nossas vidas brasileiras.” Lourenço e seu irmão são alvo de violências distintas que, muitas vezes, passam despercebidas de um para o outro. Mas é o desejo de responder a essas agressões que move a existência dos personagens.
Lourenço encontra a resposta dentro de sua comunidade, próximo dos jovens, fornecendo-lhes apoio através do ensino do esporte. Por outro lado, Federico opta pelo ativismo das grandes palestras e campanhas de alcance nacional. O seu retorno para Porto Alegre e a retomada do contato com a periferia são decisivos para a mudança de perspectiva do protagonista: ele percebe que estar engajado é muito diferente de estar em contato na prática. Sua visibilidade e credibilidade poderiam ser extremamente úteis, mas são responsáveis por distanciá-lo da realidade.
Como toda trajetória, aquela retratada em Marrom e Amarelo está repleta de interrupções. Paulo Scott demonstra que a vida humana não é feita de linearidades. As relações entre seus personagens são desmontadas e remontadas, desconstruídas e reconstruídas. A movimentação constante de Federico – pelas ruas de Porto Alegre e pelos caminhos de sua mente – desagua na linguagem: o discurso reflete a exaustão, a ira e, principalmente, a urgência por mudanças. O diálogo misturado e intrínseco à estrutura do romance é fundamental para a exposição dos conflitos e dos confrontos entre pessoas: trata-se da manifestação dos olhares, dúvidas e carências dentro da narrativa. O protagonista angustiado nunca recupera o fôlego e o leitor se torna o maior cúmplice de suas inquietações.
O romance de Paulo Scott – assim como outras de suas obras – não apresenta um consolo ou propõe uma saída. Marrom e Amarelo não oferece um abraço ou conforto em sua página final, mas um estado inquietante de suspensão e incerteza Nas palavras do autor, seus livros “não são para apaziguar, para explicar, para resolver, para confortar corações oprimidos. Marrom e Amarelo joga uma lente sob um dos aspectos da grande tragédia a partir do processo de retorno, de regresso, do seu protagonista”. O desfecho brusco soa como uma provocação e o desamparo parece intencional: quando Federico, Lourenço e Roberta embarcam no carro para a viagem final, a ausência de respostas é o gosto que permanece na boca do leitor. O final viverá em seu potencial máximo se aliado ao tempo para uma releitura cuidadosa. Ao ler a última linha, parece que o próximo passo é reler a primeira – e recomeçar.
Seu romance mais recente, Marrom e Amarelo, foi bem recebido pela crítica e pelo público. Como foi para você esse retorno?
Como autor tenho meus planos de escrita, meus planejamentos de escrita de romances, e penso que a produção em si de cada livro é muito mais determinante do que o retorno de crítica ou de público, sobretudo quando coloco a caminhada, o projeto de fazer, em perspectiva. Tenho clareza, ou a ilusão de clareza, sobre o que é importante para mim escrever, produzir. Esse é o foco, isso é o que prende minha atenção. Marrom e Amarelo teve o mesmo impacto no cenário literário brasileiro que teve o Habitante irreal, a crítica e o público os consideram marcos da produção literária brasileira contemporânea, mas não consigo encará-los como mais relevantes do que Voláteis, Ithaca Road ou O ano em que vivi de literatura, que é uma sátira ácida à cena literária brasileira antes da crise econômica que começou a se anunciar lá por 2012. Marrom e Amarelo, tentando não lhe deixar sem resposta, foi o romance em que, pela primeira vez, a crítica e o público não colocaram em questão o meu modo de escrever, a minha estranheza. Nesse sentido, sua publicação foi uma conquista. Algumas pessoas que não aceitavam minha voz, minha articulação estrutural da narrativa, parece terem entendido, ou aceitado, que esse modo, o meu modo, não é experimentação passageira, capricho passageiro, mas aquilo que, talvez, só o Paulo Scott possa oferecer às leitoras e aos leitores.
Antes de Marrom e Amarelo você já tinha uma carreira consolidada na literatura. Como foi o seu início na escrita e em que momento você se considerou escritor?
Não sei se me considero um escritor. Sei que sou um leitor esforçado, dedicado, atento. Minha escrita é parte desse processo de leitura. Por isso não consigo levar tão a sério o argumento, a hipótese, de escrita criativa. Para mim, o segredo está na leitura. É a leitura que precisa ser criativa. Quando uma primeira editora, depois que lancei Ainda orangotangos, o livro que chamou atenção das editoras de Rio e São Paulo, me procurou para dizer que me queria como autor da casa, posso dizer depois de todos esses anos passados, foi um daqueles momentos. Minha ambição era ter um livro de poesia e um de prosa, e só. O fato de ter sido procurado por editores das grandes casas editoriais mudou o rumo das coisas. Em que pese isso, ainda prefiro me encarar como alguém que não pode perder, não pode se permitir perder, o encantamento pela literatura. Quando começo o projeto de um livro, e isto é parte do meu modo de fazer, sinto como se estivesse me propondo, me submetendo, à tarefa da escrita, também aos riscos e dúvidas da escrita, pela primeira vez.
Você já publicou, inclusive, muitos livros de poesia. Como foi esse deslocamento para a prosa?
Não paro para racionalizar a respeito. Eu me considero um poeta, alguém que sonha ser poeta. Não consigo, entretanto, separar os gêneros. Tudo é escrita, invenção, memória, dor, diversão, sombra, luz, alguns fantasmas e muitas fantasmagorias.
Aproveitando a pergunta anterior, como você vê o lugar da poesia na literatura brasileira contemporânea?
O que de melhor o Brasil tem a dar para o mundo neste momento, em termos literários, é a sua poesia. Uma das raras obras brasileiras de produção contemporânea entendidas e celebradas no estrangeiro, neste exato momento em que a literatura brasileira tem tão pouco peso no cenário mundial, é a de uma poeta: Angélica Freitas. Isso tem muito a dizer.
Você vê o ser poeta diferente do ser escritor?
Não. A determinação diante da tarefa de escrita é a mesma. Claro, não estou falando de quem vê a poesia como uma forma de expressão turística das suas inquietações imediatas ou o que quer que seja nesse sentido. Poetas e prosadores têm o mesmo propósito: entender-se e, na medida do possível, entender as outras pessoas a partir da linguagem.
De onde surgiu a ideia para um romance que toca questões tão atuais e problemáticas, como Marrom e Amarelo?
O Brasil é um país com dificuldades enormes de se olhar no espelho. Nesse jogo, de cegueira e inquietações, Marrom e Amarelo é parte de um processo maior de escrutínio de nossa identidade, nossas identidades. Sua primeira expressão estava em um poema que escrevi aos 20 anos e que acabou publicado no meu primeiro livro de poesia. O poema é o “Se o mundo é redondo”. O livro foi contratado formalmente em 2013, mas a ideia foi apresentada em 2012, ano emblemático para o tema das quotas para estudantes universitários.
Como você vê o colorismo à brasileira dentro das discussões raciais que tem permeado o país?
Uma tecnologia muito bem elaborada de opressão, de intimidação, de perpetuação das desigualdades em um país que é um dos campeões mundiais da desigualdade. Isso é trágico. E parte da tragédia é que não conseguimos enxergar minimamente o quanto essa realidade é decisiva para o insucesso de nossas vidas brasileiras.
Marrom e amarelo foi traduzido para o inglês como Phenotypes. Como você enxerga a globalização do mercado literário?
Trabalho para que ela ocorra, mas não é algo fácil. Tem muito a ver com a importância econômica do país, com a geopolíticos, com as urgências do momento, mas não é só isso. O que sei é que essa possível globalização, que você refere, está mais distante hoje do que estava dez anos atrás. É um itinerário de avanços e retrocessos. E devemos cumpri-lo.
E como você vê o trabalho de tradução? O título Phenotypes, ao seu ver, engloba as nuances do romance?
Acho o título brilhante. Se eu não fosse apegado como sou ao título Marrom e Amarelo, caso pudesse retroagir no tempo, trabalharia bem com a possibilidade de assumir o título Fenótipos para a edição brasileira; nele está, sem dúvida, a essência espacial do livro.
Você considera que a lei de cotas ainda é uma questão para a sociedade brasileira?
Uma questão controversa? Um tabu? Uma desconfiança? Sem dúvida. Aguarde 2022, quando a lei será revista, para ver o quanto os opositores, que lá em 2012 não tinham tanta força, sairão de suas tocas com toda a fúria que lhes é possível conter para tentar eliminá-las. Justo as cotas que são uma das únicas grandes chances, a curto prazo, a médio prazo também, de melhorar este nosso país, pautado que é pela lógica escravagista sem a qual toda a nossa estrutura socioeconômica desmancharia no ar.
Sobre a temporalidade, qual é o lugar do passado dentro do livro?
O passado é um espaço onde podemos ficar presos para sempre. Sendo um livro que trabalha, além da raiva, a temática do retorno, “Marrom e Amarelo” acontece sob uma intersecção muito apertada, imbricada, entre passado e futuro. Mas há sutilezas nesse acontecer, sutilezas que exigem leitura atenta ou mediação para se revelarem. O tempo é gerente da trama do livro, as duas linhas narrativas se postam de maneira dialética. Quem lê com pressa ou preguiça não percebe as elipses que emolduram o tempo ocupado pelo contar do romance. Nesse aspecto é, propositadamente, uma narrativa sem pontas soltas, que, para ser recepcionada como tal, depende da inteligência e da sensibilidade da leitura – algo que, entendo, está muito além da minha ingerência de autor.
Quando se chega ao final do romance, há um impulso de passar para uma próxima página, que não existe. O que você quis transmitir com esse desfecho? Há alguma relação com a falta de um desfecho que coloque um basta nas opressões retratadas pelo livro?
Uma narrativa ficcional é um corte. A dicção contemporânea é mais inclinada a essa possibilidade do que uma obra do século XIX. Como eu disse na resposta anterior, há um fecho integral dentro dos elementos e lentes trabalhadas na narrativa. Meus livros não são livros para apaziguar, para explicar, para resolver, para confortar corações oprimidos. Marrom e Amarelo joga uma lente sob um dos aspectos da grande tragédia a partir do processo de retorno, de regresso, do seu protagonista. Pessoas me escrevem para perguntar se haverá o Livro de Roberta. A resposta é: não. Como aconteceu com os quatro romances anteriores, há uma aposta no tempo, na releitura, nas mediações. Trabalho, em grande medida, com o não dizer porque esse não dizer, inserido em um mosaico que o justifique, é o melhor modo de contar, de afetar, instigar, sensibilizar, a menos para mim. Algo que já me acostumei em relação aos meus trabalhos está no fato de pessoas me escreverem dizendo que só perceberam o que estava em questão no livro na releitura. Também para dizer que não conseguiram apreender ou gostar do livro na primeira leitura, mas que, no retorno tempo depois, tudo mudou. Receber mensagens desse tipo é algo muito especial para qualquer escritora, qualquer escritor, que sabe o que quer e insiste.
Se você pudesse deixar só uma mensagem com a escrita para o Brasil de hoje, qual seria?
Não tenho essa pretensão, é algo que está além do meu alcance. São as leitoras e leitores que chegarão a essa possibilidade; não eu.