Se na vida real somos constantemente lembrados da nossa miséria e incapacidade, no sonho não há limite. Tudo é permitido. André Filipe Alguém disse que sonhar é fundamental para viver. Essa é uma daquelas máximas de autoria desconhecida que foi creditada à sabedoria popular no correr dos séculos. É claro que me refiro àqueles sonhos que sonhamos acordados. Os tais desejos que, por parecerem impossíveis, transformamos em sonhos. Sonhar está no DNA humano desde que o mundo é mundo. No princípio, Adão desejava tornar-se igual à Deus. A história conta que, diante do fracasso, o pobre homem nu percebeu que o tal sonho era apenas um delírio. O fato é que os sonhos servem como uma espécie de combustível para enfrentar a vida e, muitas vezes, amenizar a penosa realidade. Tenho um amigo que sonha em conhecer a Itália. Todas as manhãs, no caminho para o trabalho, ele imagina-se em Veneza, em Roma, em Capri; empanturrando-se de spaghetti e lançando-se furiosamente em alguma fonte, tal qual Anita Ekberg em La Dolce Vita. Uma outra amiga conta com que seu sonho é nada menos que passar uma noite com Chico Buarque. Isso mesmo. No sonho os dois, já ébrios de champanhe, trocam juras eternas de amor e o clímax se dá quando o músico sussurra os versos de Tanto Amar ao pé de seu ouvido. Sonho ou delírio? Nos sonhos tudo é possível. Nisto consiste justamente a graça de sonhar. Se na vida real somos constantemente lembrados da nossa miséria e incapacidade, no sonho não há limite. Tudo é permitido. Amores são possíveis, superpoderes são criados, ganhamos na loteria, viajamos ao redor do mundo, comemos de tudo sem engordar, e assim por diante. Cada sonho se encaixando nos mais abstrusos desejos. E os delírios? Estes desejos incompreensíveis ou realidades paralelas que beiram a loucura. Como distinguir quando se trata de um ou de outro? Um amigo conta que conheceu um homem que acreditava ser a reencarnação de Debussy. O curioso é que o tal homem não tocava uma nota sequer no piano; o que não lhe impedia de proclamar com orgulho o raro fenômeno. Mais recentemente descobri que uma vizinha fora internada em uma clínica psiquiátrica. O motivo? Acreditava que seu marido era um major das Tropas de Assalto Nazistas disfarçado. Uma noite, ao chegar do trabalho, o pobre homem foi recebido à golpes de vassoura que lhe custaram um canino quebrado e três pontos no supercílio. Por último o Julinho, amigo de longa data que decidiu ser um escritor famoso. Um dia, dizia ele, publicaria um grande romance que lhe alçaria às mais altas honrarias literárias. Quem sabe o Nobel? Quem sabe o Pulitzer? Contava com um brilho nos olhos, numa antevisão da glória. Quando lhe perguntei quantas páginas ele já havia escrito, respondeu: “Nenhuma. Mas um dia… ah, um dia…”. Sonhar é benéfico e ainda é de graça, portanto recomendado a todo ser humano. Já o delírio é relativo, cada um inventa o que bem quiser, e é difícil definir o que é verdadeiramente saudável ou insano. André Filipe nasceu em 1992. Jornalista e escritor. Vive em Recife