Fotografia da minha autoria

«Sonhos que se tornam projetos»

A possibilidade presente numa folha em branco desperta-me uma motivação acrescida. E, por vezes, é no silêncio do imprevisto que as ideias florescem, potenciando uma nova rota no caminho. E eu aprecio bastante essa sensação, esse despertar sem aviso, que me leva a parar e a estruturar cada etapa daquele conceito, testando a melhor abordagem até estar pronto para ser apresentado. Mas como é que se gere, quando apenas nós partilhamos entusiasmo pelo nosso projeto?

MANTER OS PÉS FIRMES

Quando escrevi Lançar Um Projeto: Do Entusiasmo ao Receio, centrei-me na premissa que creio ser transversal a todos os criadores de conteúdo, porque experienciamos distintos estados de espírito durante o processo. No entanto, na altura, não senti que fosse pertinente abordar uma componente que pode, muito bem, ser uma realidade: a falha ou a não aceitação de terceiros. Porque faz sempre parte da equação.

A cada nova iniciativa que desenho e que pretendo que seja inclusiva, procuro manter os pés bem firmes no chão. Por várias razões: porque não é por nos entusiasmar a nós que interessará aos demais; porque, ainda que seja do seu interesse, temos ritmos e disponibilidades que nem sempre se ajustam; porque, efetivamente, a ideia pode precisar de ser revista e nós não o compreendemos. Portanto, ciente que há mais motivos, mentalizo-me disso. Porém, também faço por não me esquecer que, qualquer um dos cenários anteriores, não torna o conceito mau ou num autêntico fracasso. Mas causa sempre algum desajuste emocional.

CUSTA, MAS NÃO É O FIM DO MUNDO

Sinto que não cometerei uma inconfidência, se referir que esta reflexão despoletou quando a Sofia Costa Lima - A Sofia World - me perguntou como correu o desafio do Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Como faço por não me demorar no plano da lamentação, consegui responder-lhe com a leveza que estava a sentir. Ninguém aderiu e, por isso, questionou-me se tinha ficado triste. Honestamente, como lhe disse, ter-me-ia custado mais, caso o Dois Para Três dependesse de outras pessoas para avançar. Ainda assim, acabei por deambular por uma série de pensamentos sobre esta questão recente.

No final, de coração sereno, cheguei a uma conclusão: nunca poderia considerar este desafio, em particular, um fracasso porque me diverti imenso a criá-lo e, depois, a dar-lhe forma. Naturalmente, seria mais rico se houvesse participações, não só para atribuir outro propósito à celebração, mas também porque pretendia incluí-las na Portugalid[Arte], mas deitei a cabeça na almofada de consciência tranquila. Em simultâneo, sei que também pesou ter tido a experiência tão positiva do Estante Cápsula, levando-me a uma comparação. E é aí que habita o perigo, porque não é fácil libertarmo-nos dessa imagem.

Portanto, é fundamental aprendermos a separar iniciativas, porque cada uma tem o seu impacto, a não nos cobrarmos e a aceitar que, se desta vez não correu como o esperado, o amanhã será diferente. Porém, paira sempre a dúvida no que pode ter falhado e no que poderíamos ter feito melhor, para que fosse mais apelativa. Mas são demasiados «ses». E mesmo que tudo isto soe com uma certa sobranceria, se calhar, não falhou nada. Porque, neste caso concreto, depositei todo o meu coração no desafio que propus. E, ainda que os demais o considerassem uma merda, eu continuaria a defendê-lo e a acreditar que não foi um fracasso. E sabem porquê? Porque, quanto mais não seja, concedeu-me espaço para abordar uma temática que me aquece o coração e melhorar.

ACEITAR QUE HÁ FRACASSOS, MAS QUE NEM TODOS OS NOSSOS PROJETOS SÃO UM AUTÊNTICO FRACASSO

Por defeito ou mecanismo de defesa, tenho consciência que crio projetos independentes e que podem existir sem que alguém adira. Por outro lado, talvez seja porque gosto mesmo da parte de ir explorando ideias novas, sem ter receio que não sejam duradouras. O que me preocupa é que cumpram o seu propósito e que sejam desenvolvidas pelas razões certas. Tudo o resto vai-se construindo, compondo, renovando.

Nem todos os nossos pensamentos serão brilhantes. Nem todos os conceitos que desenvolvemos chegarão a quem nos acompanha. Alguns nem a nós nos interessarão em pleno, porque necessitam de maturar. E está tudo bem. Porque crescer é, também, embarcar nesta aventura e perceber que cada etapa é um impulso para nos desafiarmos. Se tivermos de largar a mão de determinadas iniciativas ou lamber as feridas por ninguém alinhar, que seja. Mas tentemos não sucumbir à pressão, pois corremos o risco de perder o fio que nos interliga a novas ideias.

Os nossos projetos podem não mudar o mundo ou não seguir o caminho esperado, mas só serão um fracasso se os considerarmos como tal. O Dois Para Três sofreu essa contrariedade e, ainda assim, continuo orgulhosa da sua identidade, da mesma maneira que mantenho vivo o entusiasmo de tudo o que criei nesta plataforma. Por isso, esta talvez seja a mensagem mais importante que quero transmitir: orgulhem-se das vossas criações. Porque são um marco bonito da vossa pegada criativa.