Da primeira vez que o vi, declamando a sua poesia, senti a sala a transformar-se de repente num daqueles autocarros de subúrbio semeando solavancos
hei-hô, marinheiros, brisa de sal varrendo a fadiga do convés, chuva de porcelana sobre os bens-aventurados, somos os herdeiros deste futuro posto em marcha pelo exercício do sorriso
o deslocamento do espaço ou da visão, os pés ardendo sobre o solo, as palavras dele atravessando-nos a todos numa voragem de neutrinos polinizadores, eu tenho a respiração ao lado da boca, tenho o sangue em contramão…
cair para dentro, Valério Romão, Abysmo, 2018.
