O segredo da mentira
crítica social, farsa, liberdade de expressão, pós-verdade, humor ácido
imagem: Guam Tumom/divulgação E aquele cômodo que fica solitário nos domingos e inquieto aos sábados: depois de decretado o fim da história, há lugar pra se estar com o coração? André Vieira Como outra história qualquer de memórias estapafúrdias, esta não foge da fórmula do cânone que consagrou-a como economicamente rentável: estilo direto, enredo peculiar, palavras ingênuas e engenhosas aqui e acolá, um desfecho silente que ninguém entende nada. À diferença que, dessa vez, não posso mentir. Afinal, depois que a lorota deslavada, a balela atrevida e a potoca safada foram proibidas pelo decreto nº 0104, de 2020, eu e mais duzentas milhões de pessoas estão veementemente proibidas de “arquitetar elucubração que falte com a verdade”; ou consumir qualquer mentirinha inocente na padaria do Seu Luiz. Sob pena de vestir um chapéu de burro e ser cortado de qualquer ciclo social pelo resto da vida. Então falemos sério: o engodo morreu quando o último contador do vigário foi enforcado com as tripas do último pescador solitário. O evento, que até contou com a presença do mandatário do reino e do senhor de uma província apertada, foi celebrado numa cerimônia solene no centro de Taubaté, a conhecida terra da trapaça. Reunindo quase 5 milhões de canarinhos verdes e gralhas azuis, o tradicional povoamento do silêncio, viu-se tomado por chilreados. Em pouco tempo, estandartes brancos e auriflamas vermelhas se misturavam à fluma de sorrisos destampados e caras pintadas que singrava e retrosseguia nas margens da Marquês de Herval, sempre ao som de um remix de Pai Nosso no ritmo pisadinha. No entanto, a passeata loquaz não convencera a todos. Espicaçada em ondas de rádio, reverberada por imagens de televisão e até empapada pelo gogó flácido de algum deputado irmanado com os humores: a lei tornava a vida quase impraticável, na prática. Não demorou para que pais, larápios e filósofos de norte a sul se reunissem pela revogação do decreto. Nem preciso falar que a vida não tava pro crime: quem é que conseguiria puxar um papo mirabolante em palestras ou socar um sermão entre os filhos sem o auxílio de gamelas baratas ou chavões passados de tecnocratas sonolentos? Em termos de patarata, pataratice ou blefe de canto de olho, quem sofre mesmo é comerciante local de causos ou o produtor nacional de lorotas. Já pensaram na redução drástica do PIB ou dos índices sociais de desenvolvimento humano quando camelôs, muambeiros e caixeiros viajantes foram proibidos de contar as “mil e uma noites” de seus cacarecos? Falando de bugigangas e bufarinhas, sempre teremos Casas Nortistas e magazines Marisa pra recorrer em caso de tevês desligadas ou refrigeradores exaustos. Mas e praquele cômodo que fica solitário nos domingos e inquieto aos sábados: depois de decretado o fim da história, há lugar pra se estar com o coração? O pior, contudo, ficou reservado aos operários da palavra. Atores, diretores, roteiristas, agentes e dublês romperam contratos milionários após não conseguirem olhar mais pra cara do outro. Do panteão máximo do conhecimento, jornalistas, editores e estagiários apostavam quem era mais canastrão nos “boletins D’A Verdade”, publicados diariamente. Já no subterrâneo do verbo, copywriters, ghosts e pseudônimos de famosos se revezavam entre um café beM Doçado e uma conexão banda-larga com acesso direto à intranet dos traficantes. E também tinha a poesia: “nunca se viu tanta gente reunida na janela desde o sucesso das cartas de Werther”, confessou o diretor do sindicato dos poetas, maravilhado com o encontro inédito com todos seus associados num único dia. E havia eu. Encafifado pelo cursor malandro que vilipendiava a tela em busca de respostas. Vou falar sério. Já ouvi história de tudo quanto é lugar, de tudo que é jeito, de tudo que tem gosto, cheiro e cor que a imaginação pode tocar no papel ou dar vida na voz vacilante. Agora, escutar todo dia que a pantomima foi soterrada no passado, e que os dias pedem por uma verdade universal conclamada e congregada no bem-comum, é querer contar mentira pra mentiroso. Ora, se for pra bolar a lorota e meter o golpe, por favor, primeiro seja honesto com sua própria farsa. É verdade este bilhete. Publicado por André Vieira Jornalista gaiato e poeta-menor. Escrevo pequenas notas e algumas reportagens quando a missão vem à baila e engano — bem — na arte milenar do hai-cai fixo. Não gosto que cebolas toquem no purê de batatas. E sim, amigos, é bolacha e não bixxcoito. Ver todos os posts de André Vieira
Texto originalmente publicado em Revista Fina