Por José Eduardo Ribeiro Nascimento

O sujeito corre em disparada pela avenida. O garoto que andava de patinete rodou e caiu. O rapaz que comia pipoca perdeu tudo na confusão. Todos olhavam para trás e gritavam: “Volte aqui seu maluco!” Logo atrás dele seguia um bando de homens em ternos azuis e cada um levava uma maleta com a inscrição ANACOZECA, Associação Nacional de Cobradores do Zé Carioca; eles corriam aos trancos, tropeçando aqui e acolá. Vez ou outra atiravam uma lata ou um sapato em direção ao fugitivo.

O Zé desceu o morro, dobrou aqui e acolá, tentando despistar os perseguidores, e acabou encontrando o Nestor, que vendia alguns quitutes para os turistas. O carioca estava desesperado, mas assim que viu seu amigo trabalhando não resistiu e parou para lhe falar:

– Nestor, Deus do céu, o que te falo todo dia com esse troço de argh… trabalhar? Perdeu o juízo?

– Ia pedir sua ajuda, mas já que você só vem pra atrapalhar, cai fora, vai espantar a freguesia; achei um trabalho para o qual tenho muito talento. Não vou deixar você estragar tudo.

Zé já ia abrindo a boca para falar, mas assim que virou o pescoço, avistou a nuvem de poeira que se formava no fim da rua, paus e pedras voando. Eles estavam chegando.

– Err… bem…, Nestor como pode dizer uma coisa dessa?! Eu vim aqui justamente para te ajudar!

– Ajudar…? E como poderia ser isso?

– Olha… O Pedrão vai dar aquela feijoada hoje pros amigos e… queria que você fosse dar aquele tempero especial que só você sabe, mas já ia desistindo de tudo por que você estava argh, trabalhando e eu vim aqui para cuidar deste seu … trabalho, enquanto você vai temperar a bóia.

Quer dizer que você veio até aqui para me ajudar no trabalho enquanto eu vou lá no Pedrão?

– … é… acho que… foi essa a idéia… foi… – Zé já estava para desistir do plano, mas a visão do comboio de cobradores, agora bem mais perto, lhe deu uma convicção animadora – é claro que sim. Pegue suas coisas e vá logo no Pedrão temperar a comida.

– Zé… você é um amigão, obrigado!

Foi Nestor virar as costas e o papagaio tirou o protetor de uma criança que o passava, lambuzou o rosto, colocou um bigode, e se pôs a virar pastéis no óleo fervendo. Os cobradores enfim chegaram ao onde os ambulantes se agrupavam, olhando de lado a outro, vieram lhe perguntar se por algum acaso um papagaio teria passado por ali como um raio.

– Ele passou por aqui, comprou um pastel, e me disse que estava de partida para a Bahia, tirar umas férias por uns tempos. O pior é que o folgado me enrolou com um papo de inflação e saiu sem pagar o pastel.

O cobrador mais baixinho do grupo resmungou:

– Não quero mais saber disso! Eu vou tirar umas férias do Zé, não agüento mais.

Os outros gritaram algo semelhante ao primeiro,  jogaram as pastas para cima, tiraram os ternos, compraram um pastel e uma garapa de cana cada – o suficiente para vender todos os pastéis prontos que o Nestor havia deixado – e foram dar um mergulho. O Zé contou o dinheiro; garantira o almoço da semana dele e do Nestor.

Conseguira fugir da primeira enrascada, faltava agora livrar o Nestor, e ele mesmo, daquele argh… trabalho. Olhou para o pracista ao lado… “Ei, amigo, estaria interessado em…”

*****

Nestor avistou o Zé lá embaixo e desceu o morro correndo para encontrar o papagaio.

– Que aconteceu com meu carrinho? Custou uma nota e você abandona lá? E aquele papo de trabalho? Num passou nem uma hora e você já desistiu?

– Calma Nestor. Aconteceu algo incrível! Eu já havia vendido todos os pastéis, e me preparava pra vir pra casa, quando de repente uma onda gigante cobrindo tudo, varreu tudo e todo mundo que tava por lá. O carrinho esbagaçou no batente. Num prestava mais pra nada, consegui ainda vender pro ferro-velho por 20 reais. No total deu cem reais pra você, e cem pra mim.

– Espere aí Zé…você vendeu o carro por vinte… e onde você achou tanto pastel pra vender? Só tinha uns trinta.

– Eita Nestor… por isso que você num cresce… ainda tem muito a aprender sobre negócios. Bora, vamos filar uma feijoada.