Romance de estreia de Ashley Audrain, ‘O impulso’ é narrativa angustiante sobre a maternidade
maternidade, trauma, instinto materno, relações familiares, culpa
Utilizando-se de uma prosa corajosa só antes vista em obras como Precisamos Falar Sobre Kevin, Audrain despeja uma narrativa moldada em culpa e trauma e, acima de tudo, sobrepujada pela violência Laura Pilan Em um ritmo angustiante e com uma linguagem cruel, O Impulso, escrito por Ashley Audrain, expõe uma ferida controversa e pungente: nem toda mãe é capaz de amar um filho. O axioma socialmente enraizado do fruto que é desejado e adorado desde o ventre é repetidamente desconstruído, desmanchado e espatifado ao lado da falácia do instinto materno. Utilizando-se de uma prosa corajosa só antes vista em obras como Precisamos Falar Sobre Kevin, Audrain despeja uma narrativa moldada em culpa e trauma e, acima de tudo, sobrepujada pela violência. A agressividade humana, que buscamos esconder sob camadas de princípios morais e de boa convivência, é a regra na relação entre Blythe e Violet – a mãe que jamais pôde estabelecer um vínculo com sua filha e a criança que, por sua vez, abertamente declara odiá-la. A aspereza está na progenitora e em sua cria, mas também habita no marido que passa a enxergá-la como máquina e instrumento – despindo-a da possibilidade de ser mulher. Indubitavelmente, a hostilidade está presente no passado, em uma geração de mulheres traumatizadas por experiências imperfeitas e torturantes com a maternidade. A dificuldade em estabelecer uma conexão com Violet desperta não só um sentimento de fracasso, mas também de insuficiência e incompetência: o que há de errado com essa mulher incapaz de considerar que a filha é sua maior conquista? Aqui, reside o principal aspecto que transforma Blythe em uma narradora não-confiável: ela não é mentirosa e nem possui um caráter duvidoso – é apenas mãe. O desgosto jamais se dissipa: intensifica-se com a frieza de uma criança que só é capaz de demonstrar carinho pelo pai – uma figura masculina pouco presente, mas que se ergue em benevolência nas poucas horas que passa em casa. Condenada à posição de vilã, Blythe é esquecida no papel de testemunha e coadjuvante em seu lar. Ela é descredibilizada, desencorajada e continuamente subtraída da vida em família que se forma diante dos seus olhos. O desenrolar desta dinâmica disfuncional é surpreendente porque a criança parece contribuir, conscientemente, para a exclusão de sua mãe. Neste momento, nos deparamos com uma situação difícil de digerir: há uma mãe, desamparada e fragilizada, que constata que sua filha é uma pessoa ruim – incapaz de demonstrar empatia e de se afetar com o sofrimento do outro. Mais do que isso, Violet demonstra verdadeiro apreço por causar a dor – manipulando colegas de classe, rejeitando cruelmente sua mãe e provocando acidentes irreversíveis. Se uma maçã nunca cai longe de sua árvore de origem, Blythe deve partilhar da culpa pelas ações da filha? Como parte de uma família amaldiçoada por mulheres desequilibradas, teria Violet recebido a crueldade como herança? Em um retrato nauseante de uma maternidade compulsória e despida de romantização e idealização, a protagonista não se transforma em uma mulher completa quando se torna mãe – trata-se do processo oposto: ela é enfatizada como figura repulsiva, desfigurada e sem valor. Não há espaço para autonomia ou individualidade, apenas para as cobranças, responsabilidades e frustrações que são sustentadas por um único par de ombros. Aqui, a maternidade é uma tarefa solitária, um dever cruel desprovido de glória. Há lugar somente para o julgamento – que parte do marido, da sogra, da filha e da sociedade como um todo. Submetida a um tratamento desumano, Blythe se metamorfoseia numa criatura que se alimenta de rejeição. E não há como ser diferente: a degradação é tudo o que ela conhece. Para o leitor desatento, o livro falha em oferecer um desfecho, encerrando com uma lacuna de perpétua incerteza. No entanto, o vazio também é uma resposta: Audrain parece afirmar que, se fomos capazes de ler até o final, compreendemos o significado do silêncio escancarado pelas páginas. Neste caso, a ausência de uma resposta ecoa aguda e cortante– com a natureza dúbia de uma acusação que também é uma sentença condenatória.
Texto originalmente publicado em Revista Fina