Existirá coisa pior do que a, digamos, “poesia” de Thiago de Mello? Lá vem ele novamente, das profundezas da floresta amazônica, como uma daquelas epidemias devastadoras, uma espécie de ebola literário, ajudar a destruir a já tão debilitada poesia nacional.

Com muito capricho, a Civilização Brasileira desperdiça árvores em papel e cuidados com a nova coletânea de versinhos (e alguma prosaroca) do autor de um livro chamado Mormaço na floresta. Pois é, o mormaço foi tanto e empapuçou de tal maneira a mente de Thiago de Mello que nela criou-se uma espécie de aneurisma criativo, mortal e inoperável.

Nem por isso ele se acanha, em DE UMA VEZ POR TODAS, de falar de seu dom poético inato: “Da poesia não poderei, jamais/me separar; ela nasceu comigo/aconchegada no meu ser: um dom”, e algumas páginas depois: “Sei que a poesia/ é um dom, nasceu comigo”!!!???

  E haja dom: o volume tem 270 páginas que falam dos amigos, da floresta, da poesia, da época da ditadura, das viagens, dos povos latinos, enfim, de TUDO. Afinal, segundo o próprio autor, as palavras “gostam da minha boca/amadurecem cantando no meu peito”!!!???? E é isso aí, leitor, você vai encontrar só clichês e derramamento barato.

    Sobre a poesia (que parece sempre ser com P, com o tom adotado): “A poesia permanece/no verso que a gente esquece”. Lindo,não ? E o assunto da poesia de Thiago de Mello? Lá vem mais  “Beleza”, “Simplicidade”: “Canto a luz da primavera/canto a chuva da floresta/canto a dor dos deserdados/ a alvorada da justiça”. Calma, leitor, não chore ainda, tem mais pela frente, afinal estamos diante de um poeta que “nada mais quis do que amar” e que, lendo ou escrevendo, gosta de sentir na boca “a laranja espremida da verdade”, um homem que se volta para o seu passado e descobre que “O segredo que guarda a minha história/ dorme dentro da flor de quem feri”. Quase custa a crer que esse ser tão embebido de Poesia algum dia feriu alguém (a não ser algum leitor incauto).

Thiago de Mello deve acreditar muito, mas muito mesmo, na força do lugar-comum! Falando sobre a mão, ele nos dá esta imagem contundente: “Mão que recebe a criança no milagre do parto”; falando sobre o coração latino-americano, de nações com “…heróis e mártires que fincaram no tempo/ a espada de uma pátria maior/ a lucidez do sonho arando o ar”. São versos que, do outro lado do espelho, poderiam ser aplaudidos por qualquer General Médici e declamados nas aulas de Educação Moral e Cívica. Já se falou muito em esquerda festiva, será que nunca mencionaram a ala da esquerda piegas?

E a seção intitulada Barro enamorado? Esse enamoramento do barro deve ser um dos efeitos do mormaço edênico, que leva o autor a cometer versos do tipo: “Hoje ao sol do pleno meio-dia/aprendi a soletrar meu próprio nome/ pronunciado pela tua boca”. E ele ainda coloca lugar (“defronte do mar”) e data dessa declaração de óbito poético.  Mas ele não é só romântico, há erotismo também: “a luz da minha língua/trabalha a felicidade/misteriosa que se abriga/numa floresta de pelos/cidadela da verdade”!!!!??? E se o enamoramento é de barro, o sonho é de mármore: “Teu corpo se modela/ no mármore do meu sonho”!!!???E a inspiradora desses mormacentos produtos da Amazônia em chamas (cuidado com os trocadilhos, leitor!) chega, hilariantemente, “altiva de carne”.

Enfim, leitor, é isso De uma vez por todas. Nessa coletânea conjuga-se tudo o que há de mais desprezível no status quo da poesia brasileira: o compadrio, esse aceno banal aos amigos, a verborragia, a sentimentalização do cotidiano, o panfletarismo, a idealização do povo (que aparece como uma entidade vaga e redentora, só qualidades). Resumindo, a poesia fácil e inócua que se tinge de uma ternura abjeta e conformista, mesmo quando parece (ou quer parecer) “revoltada” com o estado das coisas. Thiago de Mello realmente vive no terceiro mundo, subdesenvolvido, do fazer poético. Pena que a dívida de paciência que ele tem acumulada com os leitores não tenha um FMI do bom-senso que a cobre. Ou um Greenpeace que verifique e denuncie se as bobagens que ele escreve, lá das profundezas da floresta amazônica, não comprometem a camada de ozônio do planeta ou a bioesfera.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de agosto de 1996)