Caroline Barbosa
Créditos da imagem: Fé e Magia, Larissa de Souza, 2024.
Léonora Miano, no romance Stardust, mascara sua história pessoal na criação da personagem Louise. A narração em terceira pessoa se dá, segundo a autora, para afastar “os perigos inerentes a uma travessia do próprio infortúnio”. A vida da jovem camaronesa, nesse momento vivendo na França, é transformada após uma gravidez acidental.
Sem o apoio da família e do pai da criança, Louise vê a necessidade de recorrer às instituições francesas para reconstruir a própria vida. Nessa busca por uma casa materno-infantil, ambiente que proporcionaria à personagem estudar e trabalhar, ela precisa constantemente ser “cadastrada, avaliada, fichada”. A esse escrutínio de sua vida íntima a personagem reage à sua transformação em “um mero caso social”.
Poderíamos pensar na obra de Miano como uma expressão da escrevivência? No livro, o trânsito entre indivíduo e coletividade se apresenta através do questionamento. A experiência de Louise, com seus medos, desejos e interrogações abre uma janela para as outras mulheres no centro de acolhimento e reinserção social. Ela as observa e se afasta da forma como as outras mulheres levam a vida, aos gritos, prontas para a briga, mas também se aproxima, se reconhece, sabe que todas estão no mesmo barco. Na tensão entre essa jovem negra cheia de lacunas, pronta para lutar por si e sua filha, há também um coletivo impossível de apreender em sua completude, pois “não é fácil conhecê-las. Só se pode presumi-las.”
Pesquisadores do termo escrevivência defendem que essas obras não se esgotam no relato autobiográfico, apostando, também, em diferentes estratégias de ficcionalização. Na obra da escritora camaronense, há espaço para a dúvida, para a especulação sobre a complexidade humana exploradas por meio do mergulho no mundo interior de Louise e em sua maneira como olha o que está a seu redor. Podemos pensar, então, que em Stardust há a abertura para “jogos de imaginação” do mundo interno do sujeito negro a partir da aposta na incompletude de sua representação, já que “os vazios da subjetividade” abrem-se para “múltiplas possibilidade de identificação” com os leitores.
Nesse sentido, Léonora Miano pode ajudar a pensar a escrevivência ao investir na vivência de pessoas negras e na potência imaginativa de suas múltiplas possibilidades de representação.