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    António Luiz Pacheco 07.12.2018

    Gostei particularmente desta crónica (?) … não tanto pelo que seria uma crónica, mas porque fiquei a saber aquilo que ignorava completamente, e são os meandros da edição!Nunca imaginei como funciona ou funcionou, se bem que entenda a evolução que a Nossa Extraordinária Anfitriã relata, é o mercado aberto, a globalização e o consumo que permitem essas práticas ou mesmo as ditam…

    Pode nem ter nada a ver, mas recorda-me os meus tempos de comprador, nos mercados da fruta ou do peixe, também nos tempos em que não se comprava por e-mail mas sim por pura intuição, conhecimento do negócio, com informação, numa cadeia de valor que era homem-a-homem e se comprava discutindo, negociando, regateando … fosse pelo telefone ou cara-a-cara, mas por persuasão!
    Se tínhamos uma grande encomenda de morangos a um Sábado de madrugada (só a loja de Linda-a-Velha pedia 300 tabuleiros de 6 Kg) , era preciso ir mais cedo, antecipar os outros compradores… a malta via a equipa mais cedo, a rondar pelas "pedras" , a "aventar" que nem cães de caça, avaliando o que havia no mercado e sabiam logo que havia pedidos fortes… o preço subia imediatamente, mas, depois de "secarmos" uns quantos lugares grandes, subia ainda mais… aquilo começava a subir o preço até as 6 da manhã, mais ou menos, quando os que não tinham vendido começavam a baixar preços. Ás vezes dava para arriscar, comprar uma parte ao início com os preços picados, e aguardar que os que se encolhessem tivessem de começar a baixar preço, era preciso saber o que havia nos lugares, que compradores andavam por ali, se já tinham chegado ou ainda não… ou seja às 3 da manhã comprámos caro, às 5 comprámos bem… às seis é que se fazia o balanço. Umas vezes acertávamos, outras nem por isso… se comprávamos mal, ainda antes de ir recolher facturas íamos renegociar, argumentar que era caro e que tinham que nos dar um jeito. Era uma guerra, diária, mas o nosso peso de grandes compradores assim o permitia porque se puséssemos alguém de castigo e nos dias seguintes não lhe comprássemos nada, ia doer-lhe no bolso!
    Aquilo eram discussões bravas com insultos, ameaças, pontapés nas caixas vazias, mas acabavam sempre no pequeno almoço, com uma mini preta, uma taça de branco, uma "grelha", bifana ou prego… o Kusturica faria então um bom filme nessas ocasiões!

    Mas nesse tempo éramos pessoas, gente… e tratávamo-nos como tal, politicamente incorrectos e andávamos à chuva e ao frio, vi começar o fogo no Chiado e ainda fui na carrinha até ao início da Rua do Carmo, mas a polícia já não deixava passar… tínhamos a loja na Garret, a nossa melhor montra… ardeu!

    É assim, são as cinzas, as nossas memórias!

    Saudações e recordações cá da Cidade Morena!