Lídia Jorge, Misericórdia, D. Quixote, 2022, 457 páginas.

Depois de uma longa ausência deste blogue, não ausência de leituras, mas ausência de registo dessas leituras, trago aqui hoje um dos últimos livros que li no ano de 2022.

Este é, para mim, um dos mais belos livros de Lídia Jorge. Dedicado à mãe, falecida em 2022 devido à Covid 19, é um livro de homenagem à idade, aos idosos e à forma como vivem os seus últimos anos.

Tratando um tema tão actual e tão inquietante, ele é, contudo, um relato de vida, cheio de humor e de humanidade.

Os hóspedes do "Hotel Paraíso", eufemismo para "Lar de Idosos", formam uma pequena comunidade que replica o viver em sociedade, agora numa sociedade mais fechada, mais reduzida. O relato da protagonista, mesmo nos acontecimentos mais tristes e trágicos, é feito com tal naturalidade, com uma boa disposição tão cativante que nos arrebata pela forma como encara os reveses do dia a dia, nesse seu último ano de vida. Deste modo, retratando uma realidade  brutal na sua, por vezes, crueldade, o tom irónico e a espantosa humanidade de algumas personagens transportam-nos para um ambiente de paz e de esperança, longe de nos causar angústia. Tristeza e alegria, riso e dor interligam-se nesta narrativa que nos arrebata até ao final das suas mais de 400 páginas.

"Misericórdia é um dos livros mais audaciosos da literatura portuguesa dos últimos tempos. Como a autora consegue que ele seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso, é uma verdadeira proeza." - lê-se na contracapa.

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