Lílian Miranda

Crédito da imagem: I’M A LADY, Mary Sibande, 2009

Um corpus é um rio de muitos afluentes. Nesta reta final de pesquisa fica a sensação de que o que sei agora é resultado de leituras, discussões e análises – muitas vezes solitárias – mas também das aulas, orientações, tirocínio docente e contatos com meus pares, nos congressos nacionais e internacionais que pude aproveitar ao longo desses dois anos. A sensação que fica é de que a pesquisa se encerra, mas abre caminho para novas especulações.

Estou finalizando o mestrado neste semestre e a favor de todos os clichês sobre o tempo passar rápido demais, sigo me aproximando da esperada defesa de dissertação. Esse trabalho final é resultado de uma pesquisa que começou ainda na iniciação científica, pois a temática que escolhi como centro das minhas investigações lá em 2020 – o arquivo -, permaneceu efervescente e central nas minhas inquietações acadêmicas e existenciais. Tendo como aliado o romance-corpus Um defeito de cor que constantemente me faz estabelecer novas relações e possibilidades de leituras.

Nesse caminho do mestrado pude vivenciar diferentes momentos da pesquisa fazendo jus ao universo em expansão que o meu corpus apresenta. As relações entre literatura e documento me levaram às aulas de história do PPGH da UFBA. Lá pude me habituar ao ofício do historiador e conheci de perto o trabalho de consulta e manipulação de arquivos. A leitura e escuta do professor João José Reis me aproximaram da narrativa historiográfica e pude estabelecer comparações entre a dicção que tem compromisso com o fato histórico/político e suas fontes e o trato dos eventos históricos pela literatura. O arquivo na literatura e as diferentes formas como se apresenta na contemporaneidade é o aspecto da pesquisa que continua me instigando.

Durante a pesquisa, li O queijo e os vermes (1976) do italiano Carlo Ginzburg que conta a história de Menocchio, um moleiro condenado pela inquisição por se opor aos ideais da igreja. O livro parece querer interrogar o que é e como se forma um arquivo. Guinzburg destaca a importância da cultura oral e popular, pouco registrada, e pergunta-se sobre quem tem o poder de enunciação e quem/o que pode constituir um arquivo. Um conjunto de documentos? Os depoimentos de Menocchio com sua autenticidade?

Os arquivos que registram a história social são perpassados pela virtualidade, aspecto que é comentado por Derrida em vista dos fantasmas que rondam a materialidade das fontes. Na história de Menocchio, ficamos conhecendo seus depoimentos registrados sob interrogatório, ocasião propícia para a formação de um arquivo no qual aparecem aqueles despossuídos de poder na ordem social e econômica de organização do mundo. Ao examinar os processos inquisitoriais contra Menocchio, Ginzburg ilustra essa dinâmica: os documentos que compõem a base de sua pesquisa – os interrogatórios – não são transcrições puras do pensamento de Menocchio, mas sim registros mediados pela lógica e pelos interesses do Tribunal da Inquisição. A linguagem, as perguntas formuladas e as interpretações registradas pelos escrivães refletem a grade de inteligibilidade da autoridade eclesiástica, que buscava enquadrar as ideias desviantes do moleiro em categorias pré- estabelecidas de heresia.

As instituições em seu papel de detentores do poder têm a autoridade para registrar. Mas quais as responsabilidades daqueles que consultam estes registros, consultando-os como historiadores ou como romancistas?

Tenho encontrado um caminho para essa resposta no trabalho de Saidyia Hartman, que já analisei outras vezes aqui no blog e é parte importante da minha dissertação. A autora parece escrutinar as fronteiras entre história e ficção ao lançar mão do termo não- ficção especulativa ao pensar o modo de tratar o documento de arquivo como uma maneira de ir além da hegemonia imposta pelas instituições que contiveram a memória de pessoas negras em registros subalternizados. Esse flerte com a especulação se dá como possível resposta à violência dos arquivos e também como uma forma de invenção da liberdade. Assim como em Ginzburg e Hartman, entendo que a escrita de Um defeito de cor por Ana Maria Gonçalves encontra no arquivo essa memória coagulada e escolhe permitir sua fluidez a partir da curadoria de documentos e da elaboração ficcional da história de Kehinde.

Ainda assim, me questiono sobre como devemos lidar com os arquivos, o que fazer com a dimensão virtual do que está e ao mesmo tempo não está nos documentos?