16
Out12
Maria do Rosário Pedreira
Tenho a certeza de que aprendi muito do francês que hoje sei com os álbuns do Tintim do meu irmão mais velho, de lombo redondo, capa dura e cheirinho a papel e tinta. E também estou certa de que enriqueci extraordinariamente o meu vocabulário da língua inglesa com a ajuda das letras de muitas canções dos Beatles e não só e de várias séries de televisão. Por outro lado, já ouvi, fascinada, um poeta da Eritreia declamar um longo poema num festival em Liège – e foi como se, mesmo não compreendendo uma palavra do que dizia, a comunicação se estabelecesse e fizesse explodir os aplausos assim que terminou; do mesmo modo, fui uma vez levada por uma amiga entendida em teatro a uma peça de uma companhia polaca: conhecia o enredo, mas não havia tradução – e não fez assim tanta falta entender o que diziam, porque a encenação e a cenografia eram, já de si, sublimes e encantatórias. Mesmo assim, fiquei perplexa quando recentemente li nos jornais que, por falta de verba, a Cinemateca iria deixar de legendar os filmes… Céus, como ver cinema russo, polaco, alemão, japonês, chinês, sem legendas? Terá algum sentido sentarmo-nos a ver um filme mudo que, por acaso, não é mudo? Quantos menos espectadores virá a ter a Cinemateca por causa da miserável poupança? A sua programação obedecerá doravante a uma selecção de filmes de línguas mais próximas e com mais falantes? Seremos privados de um certo cinema de qualidade? E se, de repente, não houvesse dinheiro para traduzir livros?