23
Jan25
Patrícia
A leitora que há em mim leu esta crónica do Henrique Raposo com imensa vontade de concordar. No geral concordo, é uma tragédia que os rapazes leiam pouco e não diversifiquem as suas leituras (podemos dizer o mesmo das raparigas, no entanto, apesar das diferenças de géneros preferidos por ambos). Concordemos por isso que se lê pouco e isso é uma tragédia.
Mas foi este parágrafo que me incomodou:
A compaixão, uma caraterística desprezada pelo trumpismo e vista como “fraqueza” pelos arautos da masculinidade à antiga, ui ui, que machos!, não é necessariamente natural na mente humana, não é um impulso, é um treino mental, é um hábito civilizacional que se faz sobretudo através da leitura de romance. A leitura de um romance é a forma mais próxima que temos de viver outras vidas, de sentir e perceber outros meios e outros pontos de vista.
Incomodou-me porque o acho redutor e característico de uma superioridade moral da qual me quero afastar. A compaixão não se treina através da leitura. Não digo que a leitura não possa dar uma ajuda, que dá, na capacidade de nos pormos no lugar do outro, no conhecimento de outras culturas, de outras formas de vida, de aceitar a diferença. A leitura é fundamental em tanta coisa e também aí, nesse papel de empatia e aceitação da diversidade. Mas daí a dizer que que é sobretudo através da leitura que nos treinamos para a compaixão vai uma enorme diferença. Pior, acreditar nisso parece-me uma excelente forma de nos sentirmos bem connosco sem fazer, na prática, a ponta dum corno pelos outros.
Concordo com o HR na importância que características como a compaixão, a gentileza, a empatia, a bondade são das mais importantes que qualquer um de nós pode ter mas acredito que nascem muito mais da educação (que não se inicia nem se esgota na leitura) e do contacto com a bondade, a compaixão, a gentileza e empatia que nas páginas de um livro. É para mim assustador pensar que uma criança só tenha contacto com estas características através das palavras escritas.
Os livros e a leitura têm-me dado tanto, tanto ao longo da vida. A minha capacidade de imaginação vem dos livros, o meu lugar seguro é nas páginas dos livros, aprendo e torno-me melhor pessoa, mais informada, por causa dos livros que leio.
Mas compaixão? Empatia? Essas, as melhores coisas da vida, aprendi através do exemplo. A minha mãe em primeiro lugar mas tantas outras pessoas que fui encontrando foram-me ensinando, mostrando-me o caminho, ajudando-me a perceber que pessoa quero ser. Até com os animais aprendo sobre amizade, gentileza, amor, partilha. Reduzir isto a “A leitura de um romance é a forma mais próxima que temos de viver outras vidas, de sentir e perceber outros meios e outros pontos de vista” parece-me sobretudo triste. A maneira mais próxima que temos é mesmo sair de casa e falar com o vizinho, parar na rua e falar com um estranho, fazer voluntariado, ligar para um amigo que precisa falar e desabafar, olhar para os que estão na nossa casa e perguntar-lhes se estão bem, dar um abraço.