Nayara Capelo

Portadora de grandes afetos e desafetos, a autoficção vive um momento de crescente protagonismo na literatura contemporânea. Em linhas gerais, o gênero se constitui da mescla entre fatos concretos, elementos biográficos do autor e recursos ficcionais típicos, levantando conhecidas questões acerca das diferenças entre autor e narrador, ficção e história. A autoficção, chamada também autobiografia, pode então ser compreendida como um gênero intrigante, desafiador e polêmico.

Ao construir sua exposição, Ieda Magri assume conscientemente as potências e problemas da autobiografia. É a consciência, afinal, uma de suas protagonistas: Uma exposição abre-se ao leitor com uma fotografia da estrada para a casa dos pais da autora e um preâmbulo explícito – “o que se segue é a viagem ao interior da paisagem e de mim mesma pra reviver o ritual de preparação dessa grande festa familiar”. 

Este trecho cifra pontos interessantes. Estamos diante de uma viagem – devemos nos abrir ao novo, ao diferente, ao outro; vamos rumo ao interior do meio e do indivíduo – precisamos estar conscientes disso; entraremos em contato com um rito familiar – enfrentaremos ódios e amores, dores e prazeres. Assim expõe Ieda sua consciência e chama o observador à sua própria consciência. 

Destacando-se sempre que todo movimento dito consciente testemunha sobremaneira o império do inconsciente, ao leitor de Uma exposição cabe, mais que a leitura da narrativa e das fotografias autorais distribuídas ao longo do texto, a escuta de si e de Magri. Adentrando suas recordações mais primárias, a narradora conduz o leitor a semelhante evocação, intensificada todavia pela força da autoficção, que parece propiciar um movimento identificatório mais intenso e revelador que outros gêneros literários uma vez que traz em sua essência a certeza do verídico e a comprovação de uma humanidade (ou talvez concretude?) compartilhada.

Aqui podemos vislumbrar a tensão máxima entre possibilidade e perigo na autoficção. Se, por um lado, a narrativa autoficcional viabiliza uma identificação mais imediata, por outro lado escancara ao mundo a intimidade do autor, que se abre, se entrega, se expõe. Vivendo em uma cultura do cancelamento, não é difícil imaginar as consequências dessa abertura; o capítulo XVII ilustra, inclusive, o veio da superexposição. 

Mesmo assim, o mais problemático ainda é o grande risco do fechamento ao texto. Se o leitor se prende a comentários que julga inadequados, condena atitudes e cai na cegueira à alteridade, toda a potência de Ieda Magri se esvai. Uma exposição é sensível, e por isso mesmo perturbador. A perturbação, contudo, é motriz da obra: perturbada no presente pelo que chama de passado camponês, a narradora perturba a si mesma, saindo de sua zona de conforto, e ao leitor, gerando nele associações talvez esquecidas, talvez reprimidas, mas certamente incômodas. Caso o receptor se conecte apenas ao fato imediato da morte de um boi e evoque de pronto a causa da defesa animal, muito possivelmente não se conectará ao impacto desse boi, de um pé de alface ou de uma mãe na trajetória da narradora, perdendo então toda a (perturbadora) poesia de Magri.

Cabe ao leitor, então, escutar com atenção e empatia, reconhecendo a alteridade e a outra ordem que rege o livro – o domínio do campo, não o da cidade. É a vida em Águas Frias, interior de Santa Catarina, e não na metrópole carioca. É plantar, ver crescer e colher o alimento. É criar e matar o animal que provém comida e sustento. É viver sob uma lógica, desconfiar e depois, só muito depois, descobrir e entender seu desconforto. Todo esse movimento se origina no campo, constrói sentido no campo, mas emerge na cidade, onde Ieda escreve, onde entende e onde percebe a repressão do urbano sobre o rural sem entretanto cair em bucolismos ou Eça de Queiroz.

Uma exposição é um livro sobre a Natureza humana, animal e vegetal tal como percebida, sentida e vivida por uma menina e uma mulher, tão potente, poético e perturbador quanto poderia ser.