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Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Como mencionei na minha resenha sobre A Maçã Envenenada, de Michel Laub (aqui), Bernardo Carvalho era uma das minhas lacunas mais consideráveis no tocante aos autores contemporâneos brasileiros. O livro dele que mais me desperta a atenção é O Filho da Mãe, mas acabei começando por este Reprodução, que conta a história de uma série de mal-entendidos envolvendo um homem que pretende ir à China.

Este homem, nunca nomeado, é um estudante de chinês que pouco aprendeu do idioma. Ele está indo à China “justamente para escapar ao inferno dos últimos sete anos, seis deles divorciado, desempregado e estudando chinês, quando depara, na fila do check-in, com a professora de chinês desaparecida dois anos antes”.

Ocorre uma confusão no aeroporto, no exato momento em que ele encontra sua antiga professora de chinês. Algo envolvendo drogas e a polícia. O estudante de chinês é levado até a sala da polícia e lá começa um estranho interrogatório. Ele não para de falar. Não para mesmo.

Revela-se um sabe-tudo, destes que pululam nos tempos atuais, pós WEB 2.0 e Wikipedia. É um contumaz comentarista de blogs na Internet, sente-se à vontade para falar sobre a situação econômica do mundo, sobre o futuro da China, sobre judeus, policiais, educação. É preconceituoso, racista, um tanto estúpido. Julga-se, naturalmente, superior ao próprio policial que tenta obter dele informações a respeito do seu envolvimento com a professora de chinês.

Enquanto revela suas idiossincrasias, o estudante de chinês vai se complicando ainda mais. E vamos sabendo um pouco mais sobre os problemas pessoais e profissionais que enfrentam o policial que o interroga e outra policial, também integrante da investigação.

“Como? Droga? Que droga?! Ela é crente! Afinal, que língua estamos falando aqui? Então somos dois. Coincidência mesmo. Porque os crentes também me dão arrepios. Sei como é. Quanto mais distante da religião, mais bela lhe parece. Me diga se estou errado. Aposto que deve achar o budismo lindo. Aposto que é budista. E vegetariano. A religião das plantas. Judeu? Mesmo? Não, nada. Desculpe. Não parece. Polícia judeu. Racismo nenhum, pelo amor de Deus! Nunca vi polícia judeu. Claro que estou nervoso. Da boca pra fora. O senhor não sabe que brasileiro é inconsequente? Semita? O meu nome? Não, não é. É, parece árabe, mas não é. Não, não é. Certeza absoluta. Onde é que o senhor quer chegar? O senhor não vai reter o passaporte, vai? Vai reter? O nome não é árabe. Como é que é? Falso?! (…) Não é porque o senhor é judeu que eu não vou dizer o que eu penso. O senhor leu a última declaração do vice-presidente do Irã? Não leu? Pois devia. Não lê jornal? Aqui não tem wi-fi?”

A forma como a história é narrada é, literalmente, de tirar o fôlego. Quase a totalidade do livro é contado pelo estudante de chinês, na forma de depoimento, lembrando O Complexo de Portnoy, de Philip Roth. Em praticamente todo o livro não há parágrafos, nem capítulos, apenas uma divisão em três grandes partes. A primeira – A língua do futuro – é inteiramente dedicada ao estudante de chinês e seu diálogo com o policial (cujas intervenções são omitidas, mas facilmente deduzíveis). Na segunda – A língua do passado – conhecemos uma delegada com sérios problemas (e que também conversa com o mesmo policial que interroga o estudante de chinês). Na terceira parte – A língua do presente – a voz retorna mais uma vez ao estudante de chinês.

Conseguimos, nas 167 páginas do livro, conhecer muito do estudante de chinês, da sua antiga professora e do seu drama para retornar ao seu país natal, do policial e da delegada. Não deixa de ser um grande mérito de Bernardo Carvalho.

Não sei descrever bem exatamente o que me fez não gostar tanto do livro. A prosa de Bernardo Carvalho é mais do que competente, é fluída, elegante, boa de ler. Seu humor é impecável, seus diálogos têm excelente qualidade. A impressão que tive ao final é que tudo aquilo funcionaria melhor se fosse um conto. Mais até: que tudo aquilo deveria ter sido um conto, e de alguma forma foi crescendo, crescendo até ganhar ares de romance. O episódio do mal-entendido eclipsa, de certa forma, o problema da delegada. Talvez eu que não tenha entendido tudo, sei lá.

Mas não tenho dúvidas de que lerei Bernardo Carvalho novamente.

Minha Avaliação:

3 estrelas em 5.