foto SERGEI GAPON | Crédito: AFP As transcrições fiéis das entrevistas gravadas não podem retratar as lágrimas despejadas ao longo das conversas, mas podem recuperar a emoção e o trauma. O papel desempenhado por Svetlana recebe a sua devida importância: ela é alguém que escuta a dor. Laura Pilan, crítica da Fina A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Aleksiévitch, é um romance plural e, por isso, impossível de definir. É complicado discuti-lo e ainda mais difícil classificá-lo, porque não é uma história comum. Trata-se de uma colcha de retalhos formada por muitos acontecimentos, uma teia de narrativas diversas e um mosaico construído a partir de inúmeros rostos, mas não há uma imagem que defina a sua totalidade. Neste livro, Aleksiévitch se dedicou a reunir testemunhos e depoimentos de mulheres soviéticas que estiveram envolvidas nos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial. Entre as soldadas que buscaram a oportunidade de falar e aquelas que tiveram que ser encontradas, há relatos que precisam ser escutados na mesma medida em que precisavam que ser contados. As falas e confissões foram agrupadas e apresentadas em sequência, mas não há cacofonia ou ecos, faltas ou sobras – as vozes que compõem os relatos trabalham juntas em cooperação. A forma escolhida para o romance é surpreendente e, ao mesmo tempo, a única possível. Svetlana Aleksiévitch caracteriza a sua obra como constituída “a partir de vozes da própria vida”. Esta é uma definição extremamente apropriada: centenas de mulheres escolheram dividir pedaços e fragmentos de suas experiências em circunstâncias dolorosas e brutais. As transcrições fiéis das entrevistas gravadas não podem retratar as lágrimas despejadas ao longo das conversas, mas podem recuperar a emoção e o trauma. O papel desempenhado por Svetlana recebe a sua devida importância: ela é alguém que escuta a dor. Lidar com uma subjetividade tão profunda é um processo árduo e, muitas vezes, incerto. Não é inesperado que a veracidade dos relatos seja contestada pelos homens que viveram a guerra. Muitos deles advertem que as mulheres tendem a criar e recriar as próprias memórias. Contudo, é o contato direto com as soldadas que provém a certeza: nada do que foi confessado poderia ter sido inventado. Homens e mulheres parecem ter conhecido guerras muito distintas. A oposição masculina à perspectiva feminina acontece por razões muito mais complexas do que a mera discordância. A visão partilhada pelos soldados mostra-se corrompida pelo imaginário convencional de um conflito bélico: a bravura, a glória e a violência são constantemente associadas à masculinidade. O romance demonstra que não existe apenas uma versão da Segunda Guerra Mundial, mas que a tragédia é formada por particularidades. Nunca se leu ou ouviu algo semelhante à respeito da guerra porque o direito de falar ainda não havia sido concedido a essas mulheres. A guerra não tem rosto de mulher provoca sensações pouco palatáveis e muito difíceis de compreender para alguém que não vivenciou a época, o surgimento e a ascensão da União Soviética ou o nascimento do sentimento de devoção que parecia intrínseco às suas terras. A adolescência e a juventude eram guiadas pela noção de patriotismo e obrigação com a nação – participar da guerra era uma questão de honra e um dever. As mulheres, cujas histórias serão preservadas pelo romance, estavam dispostas a abdicar da própria vida por uma ideia – e também pela vitória. Essa constatação tem um sabor amargo. Muitas das funções e atividades realizadas por mulheres não foram consideradas nobres ou heroicas. O romance não nos deixa esquecer, nem mesmo por um instante, que a guerra não foi feita somente por soldados armados. Assim como a relevância das francoatiradoras e tanquistas é inquestionável, a importância das enfermeiras, lavadeiras, padeiras e cozinheiras também é indiscutível. O ato de narrar demanda coragem, mas é necessário. Em “Educação após Auschwitz”, Adorno estabelece que evitar a repetição dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial deve ser a principal exigência para a educação. Para isso, é fundamental que o ser humano entenda como a barbárie nasce e que passe a repudiá-la. A guerra não tem rosto de mulher desempenha um papel crucial para que a sociedade trilhe esse caminho: o romance particulariza e humaniza não só as cidadãs soviéticas, mas também aqueles contra quem elas combatiam. Compreender que a barbárie é causada pelo ser humano é o primeiro passo para rejeitá-la. A guerra não tem rosto de mulher Svetlana Aleksiévitch Tradução: Cecília RosasPáginas: 392 Ano da edição 2016