Pessoa e Saramago | Miguel Real
Pessoa e Saramago, o que os une? Que identidade partilham? Saramago, humanista, crente numa sociedade socialista, constrói os seus personagens a partir do homem comum, sem serem homens e mulheres indistintas, mas criaturas que, ao serem ficcionadas, traçam o seu próprio destino, guiando o discurso narrativo do autor. Como refere Miguel Real, retratou-se ao retratá-las e ao ficcioná-las, realizou-se como escritor.
Pessoa percorre os heróis nacionais míticos e históricos, para transmitir a sua visão da missão que cabe a Portugal aportar ao mundo (ao contrário de Luís de Camões, centra-se nos feitos ainda por cumprir). Pessoa e Saramago usam o elemento humano como veículo do seu discurso e da sua visão.
Sobre Pessoa, Miguel Real baseia a sua tese nos imensos testemunhos que vai recolhendo numa pesquisa exaustiva do que foi publicado, e em relação a Saramago, seu contemporâneo, usa a voz do próprio autor, recorrendo às entrevistas que deu, aos livros publicados e, em particular, aos Cadernos de Lanzarote.
A espiritualidade de Pessoa, alimentada por seres superiores, dá lugar em Saramago a uma filosofia materialista, exposta através da intimidade realista dos seus personagens, síntese da sociedade num dado momento histórico em que o próprio autor se insere. Pessoa projeta-se num tempo ainda por realizar, o Quinto Império, o Reino de Cristo Consumado. Une-os a capacidade de subverter a tradição literária do seu tempo, a capacidade de descoberta e criação de novos vetores estéticos que desobedecem ao pensamento culturalmente dominante.
Ambos foram dois dos maiores escritores portugueses do século XX, aqui presentes em tese, de forma documentada e com a paixão que Miguel Real nutre pela literatura.
Não eram personagens escolhidas arbitrariamente, mas intrínsecas à sua formação e à sua visão do mundo. Retratou-se retratando-as, narrou-se narrando-as, realizou-se como escritor realizando-as, foram elas, estabelecendo o seu destino narrativo, que ensinaram Saramago por um lado, a escrever romances e, por outro, a revelarem e concretizarem a sua visão do mundo.