Ilustração de Ligia Zilbersztejn

Sim, um jardim florido é outra história.

Maria Paula Curto*

Nunca gostei de ganhar flores de presente, acredita? A não ser que viessem num vasinho, como violetas ou orquídeas, por exemplo, que a gente pode replantar, regar, nutrir e elas ainda permanecem vivas e florescendo a cada nova temporada. Mas receber um buquê de rosas vermelhas ou amarelas, ou até um buquê de flores variadas, bem coloridinhas e “românticas”, para mim, nunca foi presente agradável ou um símbolo de amor, mas uma ode à beleza e à morte em detrimento da vida. Afinal, aquelas flores ali no buquê estão mortas. Sim, mortas. Elas foram arrancadas da terra à força, no momento auge do seu “despertar”, simplesmente para embelezar uma sala ou ficar no centro da mesa de um jantar festivo. E todos nós sabendo que elas vão murchar em poucos dias. Em poucas horas, se pensarmos nos dias mais quentes. Para quê? Por um simples prazer estético? Ou, quem sabe, para lembrar que os momentos festivos também duram pouco e que os amores podem ser mais fugazes que o tempo que essas rosas levam para começar a cair. E feder. Será?

Os amigos mais próximos e os antigos namorados – meu Deus, faz tempo isso! Acho que eu nem sei mais o que namorar significa… – já sabiam que, em vez das famosas flores, eles teriam muito mais sucesso se me dessem alguma bebida, um livro ou um DVD do Bergman (sim, sou da época do DVD, ou pior, do VHS, fazer o quê? A gente envelhece mesmo. E a alternativa ao envelhecimento não é lá muito atraente…). E nada de cremes para pele ou bombons também, por favor. Os primeiros acabavam esquecidos no armário do banheiro e sempre perdiam a validade. Os segundos eu passei a detestar após conhecer chocolate amargo e começar a tomar café apenas sem açúcar. Ficou muito doce. Depois dos 30, passei a achar chocolate ao leite quase tão enjoativo quanto doce de leite. Ainda mais aqueles, bem clarinhos, que eu comia de monte lá no hotel em São Lourenço, MG, quando criança.  Foi-se o tempo da doçura. Ok, vocês podem dizer que eu me tornei uma pessoa amarga ou com gostos meio esquisitos, mas vamos combinar que pelo menos eu sou sincera e que, após entender minhas preferências, ficava muito mais fácil acertar. E econômica, pois uma garrafa de cerveja artesanal é muito mais barata do que um buquê de flores, né não?

Nada como um pouquinho de cor para alegrar o dia, não? Os impressionistas sabiam muito bem disso e Monet talvez tenha sido o expoente máximo dessa combinação entre natureza, luz e pinceladas coloridas/ Foto: acervo da autora

Mas antes que me julguem uma pessoa fria, racional e nada romântica pelo simples fato de eu não gostar de receber flores de presente, em minha defesa, devo dizer que gosto delas em jardins. Sim, um jardim florido é outra história. Ali, no meio de suas iguais, em seu “habitat natural”, as flores ficam lindas. (Por sinal, vale dizer que tudo fica muito mais bonito quando se está onde se deve estar, onde se é o que se deve ser…) Elas trazem um colorido muito especial para a vida e nos lembram que a beleza pode não ser necessária, mas faz uma grande diferença. Nada como um pouquinho de cor para alegrar o dia, não? Os impressionistas sabiam muito bem disso e Monet talvez tenha sido o expoente máximo dessa combinação entre natureza, luz e pinceladas coloridas. Visitar L’Orangerie é perceber que o mundo pode ser melhor. Muito mais alegre, colorido e iluminado.  Aliás, faz duas semanas que estive na exposição virtual do Monet aqui, no “shopping dos diferenciados”, com minhas filhas e elas tiveram que, literalmente, me arrancar da sala em que suas telas dos jardins de Giverny são projetadas em painéis gigantes na parede, em 180 graus. Se dependesse de mim, eu ficaria lá por horas e horas. Completamente extasiada. Creio que estamos precisando de muita cor nesses dias tão sombrios. Mas cores de verdade, de liberdade efetiva e não esse verde e amarelo antidemocrático que assolou as ruas desse país no dia que deveria ser de comemoração da nossa independência…Mas essa já é outra história.

Não ando caminhando muito ultimamente por conta dessa maldita pandemia – e sim, eu tenho medo, do corona, da variante delta, dos que não se vacinaram, dos que ainda não acreditam – mas devo confessar que fiquei maravilhada com a quantidade de ipês amarelos floridos que estão espalhados pelas ruas de São Paulo. Às vezes, acho até que não combina muito com o estilo dessa cidade. São Paulo, para mim, sempre combinou mais com um céu nublado, um friozinho e uma garoa. Tal qual uma Londres com seu “fog tropical”. Por isso, esbarrar num ipê todo florido na esquina de casa é quase um paradoxo. O que ele está fazendo ali? No meio de todo aquele cinza? Quem autorizou esse ser a quebrar a regra feita de asfalto + concreto e se desfolhar em amarelo no meio da calçada? Quem permitiu essa exuberância absurda, atraindo a atenção de todos para sua beleza tão passageira? Será que ele não sabe que isso vai durar pouco? Que logo logo a temporada passa, suas flores amarelas vão cair e sujar o chão (e alguns carros) e ele vai ficar assim, pelado, marrom, feinho, esquecido no cantinho ao lado do poste, esse sim, um pobre coitado, eterna e concretamente cinza? Quem deixou esse ipê ser tão exibido? Quem?

Exuberância absurda, atraindo a atenção de todos para sua beleza tão passageira? Será que ele não sabe que isso vai durar pouco?/ Foto: Márcia Leiner

Não sei se foi a mãe natureza ou se foi pura ousadia do próprio ipê. Mas agradeço. Agradeço a sua coragem em abrir mão da regra e colorir meu dia. E me lembrar que, não importa se o fim é certo, se já está perto, se o prazer é sempre instantâneo, se o que mora ao meu lado é frio, cinza e seco, eu posso fazer diferente e trazer um pouco de cor e beleza à vida. Mesmo que por pouco tempo. Nesse “rápido instante” entre o nascimento e a morte. Existirá outro momento?

Maria Paula é carioca, mãe e mestre em filosofia pela PUC-SP.