[verbete]: A pedra, possibilidades e certezas
filosofia, ontologia, linguagem, natureza, metáfora
Pedra [Do gr. pétra, pelo lat. petra] Substantivo feminino Matéria mineral dura e sólida, da natureza das rochas (bloco de pedra; encosta de pedra)Fragmento dessa matéria (as pedras de um rio, de um caminho)Qualquer variedade dessa matéria (uma pedra calcária; uma pedra de ágata)Essa matéria, usada para um fim particular (casa de pedra; panela de pedra)Montanha de pedra; rocha, rochedo (escalar uma pedra)Lápide SepulcralPedra preciosa, ou falsa, usada em joalheria e bijuteria (caiu a pedra do anel)Retângulo de ardósia com moldura, usado (raramente, hoje) para nele se escreverP. ext. V. quadroPedaço de qualquer substância sólida e dura (uma pedra de sal; uma pedra de sabão, uma pedra de gelo)As pedras de gelo do granizo (Ontem choveu pedra)Peça de certos jogos (pedra de gamão)Peça de alguns jogos de azar, como o loto, o bingo, etc. (quando cantaram a pedra 20, ganhou o prêmio)No charadismo, v. chaveLitografia V. pedra litográficaBotânica Corpo duro que se forma no mesocarpo dos frutosConstrução Fragmento de rocha de diâmetro máximo compreendido entre 7,6cm e 25cmMedicina CálculoBrasileirismo Caneco de chopeBrasileirismo BA Diamante grandeBrasileirismo BA Número sorteado no jogo do bichoFigurado Pessoa muito estúpida, bem pouco inteligente (Este menino nada aprende, é uma pedra)O que é duro, insensível, empedernido (coração de pedra; olhar de pedra)Brasileirismo, Gíria Pequeno bloco de crack, ou maconha prensada. [Glossário possível para Pedra: Entidade Metafísica e mística: na falta de uma pedra concreta em que tropeçar, há uma pedra no caminho do pensamento. Na falta de uma lança furando o corpo, uma pedra preciosa, com propriedades de cura, trata as chagas. Início do tempo: a primeira idade a ser medida é a da pedra. Entidade maleável: Sedimento formado por eras, que mistura elementos magmáticos e animais. Catado de toda sorte de espécie. Mistura indivisível. Matéria-prima para alquimia.] Descrever a pedra é se perder num sem-fim. Penetra-la é impossível. Não tem porta. Não é possível adentrar-lá pelo som e nem pelo silêncio. A pedra não tem ausência de nada, já que para perceber a ausência seria necessário em primeiro lugar ter o sentido para perceber aquilo que falta. Muitos tempos se misturam na pedra. A sua utilidade dentro da cronologia curta das sociedades é muito limitada. Não é difícil encontrar materiais melhores, mais resistentes, mais lapidados. A pedra é abandonada pela história humana como simplesmente primeira tecnologia, como mera falta de alternativas, muito embora a ultrapasse em todos os sentidos possíveis, narrando a cronologia de um universo muito mais multifacetado, diverso, sublime, e, na sua rima interna, inacessível, muito melhor organizado. Tem a imortalidade elegida para a História, mas não lhe coube a maciez para carregar a literatura. Há poemas, certos contos, elegias, que são pedra. Um limerique pode ser impenetrável, inteiro, assim como o pode ser a cena de uma luta eterna entre o bem e o mal. Poetas tentaram aproximar a linguagem da forma da pedra, para outros o esforço de destruí-la foi menos trabalhoso que o de simplesmente conhecê-la. A pedra é um objeto intransformável. É possível esculpir o tempo, esculpir o ar, esculpir o nada- cada um desses objetos se presta ao trabalho- possui novas informações, novas formas, possibilidades de inventar-se. A pedra é uma só, perene. Os acontecimentos não tem lugar dentro do seu tempo eterno. Se pode fazer papel de uma árvore fecundada antes de nascerem as línguas, de um conhecimento mais profundo do que a linguagem, mas a pedra é completa na sua perpetuidade. Num diálogo a pedra será inevitavelmente o ponto final ao qual não cabem adições. A pedra é o morfema de um nada, de uma questão sem começo, de uma indefinição. Não é nada e ao mesmo tempo continuamente suplanta-se- mais rápido do que passa o instante ela já é outra. A sua objetividade é de uma mudança mais que de uma dureza. É uma antevisão mais que uma presença. As categorias não bastam para lhe definir. A pedra é uma sugestão de evitar-se qualquer metáfora. É uma objetividade seca e sem definição. Eu não posso começar a esgotar os seus limites- mesmo eles aludem a uma compreensão que é diferente daquela que possuo. A pedra é um exercício de descrever um objeto não como um objeto, mas como um fluxo vivo e interminável do magma.
Texto originalmente publicado em Revista Fina