Batida Só, 240 páginas, é da Todavia.


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Ouvi falar de Giovana Madalosso porque ela estrelou um fiasco muito engraçado: publicou um texto na Folha de S. Paulo no qual comete uma tremenda batatada (confunde o sobrenome da família Heil com a saudação nazista) ao mesmo tempo em que se gaba de sua própria sagacidade e de seu suposto “espírito de jornalista”. Esta semana vim conferir se ela se sai melhor na ficção.


Maria João é diagnosticada com um problema cardíaco grave. Tem que começar a tomar antidepressivos e antiarrítmicos, e esses medicamentos a deixam com os sentimentos embotados. Para evitar emoções fortes, ela tira férias e vai passar um tempo na cidadezinha onde cresceu. Lá, ela reencontra Sara, uma amiga de infância cujo filho, Nico, está com câncer em estágio avançado. Sara decide procurar uma “cura espiritual” para o filho, no estilo João de Deus, e Maria João vai com eles nessa busca, apesar de ser cética em relação à possível eficácia do procedimento. A segunda metade do livro é o relato dessa viagem.

Curioso que, ao ouvir falar do curandeiro milagroso, a protagonista reage: “Tenho muitos anos de jornalismo. Sei demais pra não desconfiar dessas coisas.” Ela tem o mesmo “espírito” da Giovana! Aliás, é também colunista de um grande jornal. Será que este livro faz parte da tal auto-ficção e a autora está contando uma história que realmente aconteceu? A certa altura da viagem, ela comenta que “um dia escreveria algo com tudo o que vimos, fosse em forma de reportagem ou outro tipo de texto”, e o “médico do Nico” de fato aparece nos agradecimentos, então tudo indica que sim. Mas isso pouco importa.

Na primeira metade do livro, temos Maria João lidando com seu diagnóstico. A perspectiva da morte é o gancho perfeito para suscitar reflexões sobre a vida, porém o texto entrega pouco nesse aspecto.

basta o corpo adoecer de forma grave para que todas as aflições desapareçam e apenas uma passe a existir

Sempre fui tão pretensiosa, achando que sabia tanto, porém naquele momento me dava conta de que não sabia mais do que ninguém

Os meus pais são como gordura: em excesso, fazem mal à saúde

A psiquiatra pediu que eu falasse sobre a minha personalidade. Contei que eu era uma biruta agitada pelo vento das emoções

O meu coração era um bicho assustado, um recém-nascido que nunca envelhece, uma criança de mim mesma que levo no peito para me lembrar da criança que fui, sou e sempre serei

É por isso que as pessoas gostam tanto de música, porque emociona

cada corpo é uma folha em branco a escrever todo dia a sua própria e única história

o contrário da vida não é a morte. É o medo.

Concorre com Itamar Vieira Jr no quesito frases insípidas.

O texto também é capenga em outros trechos. Por exemplo, a pequenez da cidade natal a deixa melancólica. Segundo ela, na cidade grande “é preciso desviar do carro, do pedestre, do ônibus. Ficar atento ao farol, à placa de rua, aos letreiros. Andar rápido para não chegar atrasado. Trabalhar rápido para não ser engolido”. Ao caminhar por um bairro pobre, ela observa que “Algumas casas daquele lado nem sequer tinham pintura. Como se o dinheiro tivesse acabado na etapa dos tijolos. Como provavelmente deve ter acontecido”. Ela se diverte imaginando turistas em Paris, “passando mal numa cama de hotel, com medo de morrer longe de casa, procurando no dicionário uma palavra para pedir ajuda, ligando para a recepção: Help! Pain! E a recepcionista respondendo: Pain?, para em seguida enviar ao moribundo uma equivocada cesta de pães.” Alguém avise a Giovana que trocadilhos são feitos com o som das palavras, não com sua forma escrita. “Ainda bem que estudei em escola pública, do contrário era possível que não soubesse multiplicar e dividir, só somar e subtrair.” Oi?? Precisei ler duas vezes esse trecho.

A segunda metade do livro conta em detalhes a tal viagem, em um tom mais jornalístico, sem tantas reflexões sobre a vida. Com menos oportunidades para derrapagens, o texto em si melhora um pouco, mas o resultado continua fraco. A história é chocha. Eles vão na tal “cura”, eles comem suas refeições, fazem compras, vão a um baile, conversam sobre o dia. Nada de interessante. A protagonista se debate com a questão da fé, não sabe se acredita, se não acredita, se deveria acreditar… Mas é pouco. Não é material para mais de duzentas páginas. A leitura é monótona. Os temas estão lá — uma criança com câncer, uma mulher correndo risco de vida, a fé, a esperança, o medo —, mas Madalosso não sabe o que fazer com eles e a coisa não deslancha, os personagens não cativam, os diálogos são banais, os eventos são banais, as reflexões são banais.

A autora dá um desfecho tocante à história, porém ele depende de que a gente acredite que um fazendeiro amante das artes teria construído, durante a pandemia, um teatro a céu aberto no meio da roça para encenar Sonho de uma noite de verão. Difícil.

Três machadadas.

(lembrando que livro sem machadada é ótimo, uma machadada é bom, duas é fraco e três é muito ruim)

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