imagem/divulgação Com forte influência da filosofia de Nietzsche, os contos reforçam a aspiração de Mann de navegar entre o lírico e o trágico, ainda que nos mares da épica. Giovana Proença Além de consagrar obras como A Montanha Mágica e Morte em Veneza, subverter o clássico em Doutor Fausto e colocar Tonio Kröger entre as mais célebres personagens da literatura, Thomas Mann foi, primeiro, um contista. A obra do autor na forma breve se apresenta multifacetada, transita entre as inovações modernistas e a beleza da narrativa tradicional, em edição da Companhia das Letras, que traz a obra do Prêmio Nobel de 1929 aos brasileiros que desejam ter contato com um dos mais eruditos gênios literários modernos. Se o argentino Julio Cortázar afirma que o cerne do conto está na necessidade de nocautear o leitor, somos arrebatados desde a abertura do volume de Mann, com seu primeiro escrito “Visões”. Devo esclarecer, contudo, que a primazia tem mais de um sentido, trata-se da primeira publicação do escritor, que gozaria de extensa carreira nas letras, iniciada ainda na juventude aos modos da precocidade de seu Tonio Kröger. Com forte influência da filosofia de Nietzsche, os contos reforçam a aspiração de Mann de navegar entre o lírico e o trágico, ainda que nos mares da épica. Esteticamente, vemos a realização da máxima adorniana, para Mann, forma é conteúdo social e histórico. A necessidade de inovação do autor sucede o fracasso dos moldes tradicionais em contemplar as estórias de novos tempos. Os contos versam sobre os temas típicos de Mann: a morte, a doença, o isolamento e a arte. Entre suas linhas, entretanto, Thomas Mann coloca em questão o contexto de transição entre o resgate de valores humanistas do século XIX, e o choque da degradação burguesa que a Europa experimentava no século XX, permeados pelo pessimismo lançado por Nietzsche. Mais do que isso, ele se apropria do estilo grotesco, como forma de reação aos costumes burgueses, conforme afirma em um de seus ensaios na Past Masters que a literatura moderna aboliu as categorias de trágico e cômico, reunindo-as em um único gênero, tornando o grotesco o estilo anti-burguês por excelência. De frente com um dos maiores escritores da literatura moderna, não podemos nos enganar pela ideia de brevidade: não estamos diante de “Thomas Mann para quem tem pressa”, o refinamento estético e a compressão histórica e filosófica que define os contos de Mann devem ser apreciados com a mesma atenção que os relevos da extensa Montanha Mágica. Os ContosThomas Manntradução de Claudia Abeling e Herbert Caro432 ppCompanhia das Letras Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença