Acervo do autor/Divulgação
Não temos identidade a preservar, em nossa contemporaneidade, nada do que temos merece ser preservado, a meta é sempre conquistar o que não somos e não temos, e que provavelmente nunca seremos e nunca teremos. Com isso, só preservamos uma coisa: a frustração.”, afirma Valente à Fina.
Giovana Proença
Enquanto parte da multifacetada produção contemporânea brasileira volta-se para um aparente conservadorismo da forma, outro grupo de escritores surfa ainda na radicalização das experimentações modernistas, proposta por nossos romancistas mais inovadores. Esse último é o caso de Leonardo Valente, em seu novo romance, criogenia de D. ou manifesto dos prazeres perdidos, lançado pela Editora Mondrongo. “A diversidade que vemos hoje têm convertido pelo menos parte da literatura brasileira contemporânea em espaços muito interessantes de contestação e de experimentação.”, afirma Valente à Fina.
O título nos remete a duas de nossos maiores expoentes, a obscena senhora de Hilda Hilst, incompreendida titã da poesia e da prosa, julgada injustamente por seu estilo singular, e Clarice Lispector. A protagonista – ou o protagonista – de Valente, contudo, faz uma aprendizagem inversa a da personagem lispectoriana. Se a Lori de Uma aprendizagem ou o livros dos prazeres parte em sua odisseia para se juntar a Ulisses, D. busca lidar com a ausência de seus tantos ex-maridos.
A transgressão aos gêneros literários bem marcados, traço das inovações estéticas do século XX, está presente no romance. D. emprega o lirismo como poucos seriam capazes. Há uma montagem narrativa, como se estivéssemos diante de uma colagem em sua confecção. Intimismo, epístola, confissões, fragmentos. D. mobiliza tudo a seu favor e a seu desfavor. Cita a tradição literária com maestria, a tragédia da Anna Karenina de Tostói, por exemplo, perpassa a narrativa.
Somos avisados de antemão para desconfiar de tudo. Nem mesmo o gênero de D. nos é revelado. Como o Bento Santiago de Machado, nosso narrador/narradora inconfiável nos confessa traições. Entretanto, essa misteriosa figura também nos trai. D. se revela e veste novas máscaras a medida em que prosseguimos em seu intimismo. Aqui cabem muitos rótulos da tradição literária: romance psicológico, monólogo interior, romance introspectivo, prosa poética, romance psicanalítico. A forma é moldada com cuidado entre grafias, fontes, maiúsculas e minúsculas. Os silêncios e páginas em branco também informam a ausência latente em D. Presente é tempo singular para esse ser, cujo passado invade seu relato fragmentário, mesmo quando a presença ainda se estende.
Leonardo Valente acredita que “Às vezes, só nos tornamos claros se começamos a contar uma história pelo final, ou pelo meio.” Por último, falamos, então, do título do romance. A criogenia, cara à D., é exposta em paralelo com a escrita. Se o “gelo detém por um tempo o próprio tempo”, há também a interrupção da vida. Na escrita, a vida se limita às letras. O escritor comenta o momento em que vivemos “Não temos identidade a preservar, em nossa contemporaneidade, nada do que temos merece ser preservado, a meta é sempre conquistar o que não somos e não temos, e que provavelmente nunca seremos e nunca teremos.” Em sua tentativa de se preservar pela literatura, D. marca, assim, uma contundente transgressão.
Revista Fina: Como criogenia de D. ou manifesto pelos prazeres perdidos surgiu para você?
Leonardo Valente: Surgiu como conto, publicado em duas revistas literárias, a Zummbido (que não existe mais), e a Gueto. Acordei durante uma madrugada angustiado com o fato de sentir meu texto preso, de perceber que me vi escrevendo apenas para agradar. Era tudo o que não queria, sou jornalista e professor universitário, e toda a minha vida profissional foi marcada por técnicas textuais e por amarras, necessárias, nestas duas áreas, mas amarras. A literatura, contudo, tinha que ser o meu campo de liberdade total, e ter me dado conta de que isso não estava acontecendo me atormentou. Levantei-me da cama, e disse: vou escrever sem me prender a nada e ninguém, quero ser livre, totalmente livre aqui. O conto ficou pronto em uma noite. Depois de publicado, percebi que aquela narrativa me agravava e que a história renderia um romance.
Como foi o processo para converter a narrativa em romance?
O texto foi para a gaveta, e retomado em 2019, quando comecei a sofrer com crises de ansiedade. Escrevi boa parte do livro durante as crises, o que me ajudou muito. Em 2020, no início da pandemia, parei mais uma vez, retomando-o para finalizar e revisar apenas no fim do ano, justamente quando tive COVID. Todo o acabamento foi feito em isolamento e em meio ao medo do desconhecido, de uma doença que eu não sabia como se comportaria dentro de mim. Ou seja, escrevi esse livro durante momentos muito sensíveis, e acho que isso ficou em suas páginas. Depois de tudo pronto, ainda não estava convencido que era um texto realmente publicável, fiquei muito inseguro. Foi quando mandei um e-mail para Maria Valéria Rezende, a quem chamo de madrinha, pedindo para que desse uma olhada no original quando tivesse um tempo. Estava decidido a só me movimentar quando ela me retornasse, não importava o tempo, e se demonstrasse que não gostou, certamente eu arquivaria. O e-mail foi enviado às 8h de um feriado aqui no Rio. Ao meio-dia, ela me respondeu que ia ler o texto, às 13h, mandou mensagem dizendo que não conseguia parar de ler, às 18h me mandou três áudios lindos que me fizeram chorar por meia hora, e que guardo comigo. Foi quando decidi publicar, e assim o romance nasceu. Parte do que ela disse está na quarta página, mas é só uma pequena parte, o restante está guardado com muito carinho.
No título temos alusões a Hilda Hilst e Clarice. Na história, Tolstói é evocado. Você pode nos falar sobre as suas principais referências literárias?
Sou uma quimera, metade Clarice, metade Saramago. Além de ídolos, são meus grandes autores de formação, se estou na literatura, a responsabilidade é deles. Mas sou influenciado por muitos outros e outras. Hilda, Lygia, Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu, são tantos que precisaria de uma lista. Gosto muito de literatura russa, na universidade costumo usar autores russos para ensinar sobre a Rússia do século XIX em um curso chamado Literatura Russa e Estudos Internacionais, voltado para alunos de Relações Internacionais, e tenho verdadeiro fascínio por Tolstói e por Gogol. Saramago e Clarice, contudo, são sempre os mais presentes. Curiosamente, acho que esse romance tem muito pouco de Saramago, o que não acontece nos anteriores, onde a influência dele foi decisiva.
Como você pensou a composição da personagem-narradora – ou personagem-narrador – na questão da não marcação de gênero?
Costumo dizer que D. foi concebida, ou concebido, em um processo de engenharia reversa, se comparada à forma como criei outros personagens. Quando crio um personagem, primeiro imagino quem ele é, se homem ou mulher, se cis ou trans, o que faz, sua aparência, e construo seu perfil psicológico, suas emoções. Com D. não foi assim, nesse caso os sentimentos surgiram antes de tudo, eles moldaram D. A dor, a angústia, o medo da solidão, a ironia, o prazer e tantos outros. E ao construir alguém a partir do que se sente, a partir dos dramas, dilemas e vazios que surgiram primeiro, percebi que essa pessoa não poderia ser enquadrada em um gênero, porque isso a reduziria, porque aqueles sentimentos eram, acima de tudo, humanos e não deviam ter filtros anteriores a eles. E para isso, usei nossa própria língua, aproveitei-me do fato de o português ser tão marcado por gêneros, para provocar essa indefinição.
O que o caráter fragmentário do livro diz para você?
Que em um livro, não apenas as palavras comunicam, mas também os espaços, a página, as formas, que todos os recursos disponíveis no papel ou na tela complementam a palavra, concorrem ou disputam com ela. Uma página com uma frase, muitas vezes me diz mais do que páginas inteiras repletas de texto. No caso de criogenia de D., o texto fragmentado também mostra que a vida não é contínua, tampouco uniforme, que passado e futuro são dimensões do presente, que a ordem cronológica nem sempre é a ordem ideal para a compreensão do que nos cerca. Às vezes, só nos tornamos claros se começamos a contar uma história pelo final, ou pelo meio.
criogenia de D. é, de certa forma, um retrato da identidade e dos relacionamentos no nosso tempo. Como foi construir essa representação?
Foi preciso visitar e revisitar todos esses espaços, esses lugares plenos e esses vazios de nossos dias, e isso dói demais. Não foi um processo fácil, pois apesar de não ter feito auto-ficção, abri gavetas e caixas, acionei gatilhos. Um livro que me influenciou muito neste sentido foi “A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo”, de Gilles Lipovetsky. Para Lipovetsky, em nossa sociedade clivada pelo consumo, a indiferença e o narcisismo são as marcas mais profundas de nossos relacionamentos com todos e tudo o que nos cerca. A apatia, o individualismo, a necessidade de anestesia, a intolerância a qualquer tipo de dor, o efêmero e descartável, a felicidade fabricada como estratégia de marketing, a necessidade de holofotes e de protagonismo, tudo isso que também permeia nossa vida atual eu quis incluir, tudo isso que, queiramos ou não, vive de certo modo dentro da gente. Em meio a tantas lutas que travamos e que precisamos travar, não podemos fechar os olhos para essas características contemporâneas de nossos comportamentos e de nossos relacionamentos, são questões de todos, de todas as classes sociais e idades, e precisamos refletir sobre isso
No livro, é traçado um paralelo entre a preservação pela criogenia e a tentativa de preservação pela literatura. Você pensa que hoje, apesar da profusão de informações que deixamos sobre nós nas redes sociais, há uma dificuldade de preservar a identidade?
Na comunicação, o excesso de informação é chamado de entropia, que não comunica, é gerador de caos, de confusão. Deixamos muitas informações sobre nós nas redes e em todo o canto, mas que informações são essas? Selfies? Fotos do corpo em forma, textos que reclamam da política ou da série que estreou no Netflix? O que essas coisas dizem sobre o que somos? Procuramos saber o que somos, olhamos para dentro? Acredito que cada vez menos. Não temos tempo, precisamos postar aquela foto até às 18h para gerar engajamento, precisamos ver o filme da moda que está todo mundo vendo e fazer um stories com o cartaz e a marcação do cinema. Precisamos ir à praia, não para aproveitar a praia, mas para publicar que fomos à praia. E ainda precisamos trabalhar para enriquecer, pois a meta é a riqueza, a glória e a fama. Não temos identidade a preservar, em nossa contemporaneidade nada do que temos merece ser preservado, a meta é sempre conquistar o que não somos e não temos, e que provavelmente nunca seremos e nunca teremos. Com isso, só preservamos uma coisa: a frustração.
Como você enxerga o lugar da literatura brasileira contemporânea?
Vivemos um momento excepcional de produção, talvez um dos melhores de nossa história e isso ainda não é devidamente valorizado. A quantidade de boas obras sendo publicadas é impressionante, tanto em prosa quanto em poesia. As editoras independentes têm muita responsabilidade nisso, graças a elas o Brasil deixou de ser um gigante com três ou quatro editoras e duas dezenas de escritores que conseguem publicar. Apesar das dificuldades, é bonito de ver lançamentos para todos os gostos, eventos tão diversos sobre literatura, escritores e escritoras tão diversos. Confesso que detesto o discurso de que temos mais escritores que leitores. Definitivamente não, isso é conversa de quem quer manter privilégios. Precisamos de muito mais! E essa diversidade que vemos hoje têm convertido pelo menos parte da literatura brasileira contemporânea em espaços muito interessantes de contestação e de experimentação. Neste assunto, tenho uma visão muito positiva, acredito que estes anos que vivemos serão lembrados como um período muito rico para a literatura brasileira.