De onde vem a inspiração para escrever?


Este livro, de Eduardo Halfon, aborda essa questão, tentando compreender o que levou autores como Hesse, Hemingway ou Nabokov (entre outros) a escrever, ao mesmo tempo que tenta compreender o que o leva, a ele próprio, a seguir a escrita. Aqui, o mundo da ficção e a vida real entrelaçam-se, bem como a vida do próprio autor com as dos autores que tenta compreender.

Existe o momento da primeira inspiração literária. O primeiro golpe. Como escritor, suspeito de que todas as pessoas que decidem fazer uma incursão no mundo das letras, sem dúvida, sem dúvida alguma, têm um momento específico de génese literária. Situá-lo é diferente. Dito de outra forma: em que momento é que alguém se torna escritor?

Não sei até que ponto sou fã de livros sobre livros, ou sobre outros escritores; gostei muito de Possession, de AS Byatt, e A Rapariga que Roubava Livros é também uma leitura interessante; Livros, de Zoran Živković, foi interessante mas não diria que inesquecível. Mas essas são obras 100% fictícias; este livro é um misto, logo, é de carácter totalmente diferente. Lembra, de certa forma, O Nervo Ótico, misturando histórias e estórias sobre autores com a vida do próprio autor do livro.

Antes de fecharem a porta, Hermann sentiu a mão do pai sobre o ombro; viu-o baixar os olhos, decepcionados, melancólicos; e ao longe, já com a porta a fechar-se, a última coisa que julgou distinguir foi um leve tremor na forte queixada do pai. Na penumbra, porém, já era demasiado tarde para o abraçar e lhe pedir perdão.

Onde se encontra a vocação literária? De onde ela vem? Halfon questiona e fica obcecado com a ideia: mas decide que continuará a escrever.

É, assim, uma espécie de ensaio sobre a literatura, a escrita, a busca pelo momento em que se sabe que se será escritor, ou que se quer ser escritor. A resposta, porém, não parece fácil de encontrar. Haverá realmente uma resposta?

Descobri que os detonadores literários nas pessoas são tão variados como as próprias pessoas; e escultores tão inesperados trabalham com a argila crua que são esses escritores incipientes. O anjo literário - anjo caído, talvez luciferino, mas anjo, no fim de contas - não tem horários fixos, nem momentos planificados. Voa por cima de um infeliz qualquer quando lhe apetece e ponto. Às vezes, esse anjo é perceptível. às vezes, disfarça-se. Às vezes, o seu voo é tão fugaz e silencioso que nunca ninguém ficou a saber que passou por ali, espargindo palavras mágicas sobre uma qualquer vítima e deixando legiões de futuros leitores na perplexidade absoluta, porém, felizes.

Fiquei curiosa com a restante obra do autor, nomeadamente El boxeador polaco, por saber que o autor guatemalteco tem origens judaicas europeias e por falar na procura da identidade.

4/5

Esta edição está esgotada, mas podem comprar em espanhol aqui.