14
Mai13
Maria do Rosário Pedreira
Há muitos anos, na Temas e Debates, publiquei um livro de entrevistas de Maria João Avillez a Álvaro Cunhal – e era notória a admiração da jornalista pelo entrevistado, embora pertencessem a quadrantes completamente distintos, sobretudo quando contava que levara a Cunhal todos os seus romances (os de Manuel Tiago, evidentemente) pedindo-lhe que lhos assinasse e que, de todas as vezes, regressara da entrevista sem o tão almejado autógrafo (senti que nem toda a gente teria coragem de se confessar tão absolutamente ignorado e desprezado sem um tom minimamente acusatório). Contaram-me também recentemente que Salazar era um grande leitor de Aquilino Ribeiro – e que o facto de o querer preso nada tinha que ver com a admiração que nutria pelo escritor (já pela pessoa, não se pode dizer o mesmo). Os intelectuais têm sido respeitados ao longo do tempo mesmo pelos seus maiores inimigos ou rivais, mas vivemos um tempo de viragem absurdo, em que, usando uma expressão de Ortega Y Gasset, os «ocupados» (os políticos) ignoram simplesmente os «preocupados» (os intelectuais) e não têm por eles o menor respeito, desprezando o que pensam ou dizem e não pedindo para nada o seu parecer. Ah, triste arrogância dos ignorantes que nos governam, que não só não devem ler uma linha (excepto num quadro em Excel, e mesmo aí...) como ainda por cima acham que quem lê, escreve, pinta, compõe – pensa e cria, em suma – não é gente a quem se deva dar atenção. Tristes os tempos que atravessamos, em que o Presidente da República omite deliberadamente o nome de Saramago numa Feira do Livro na Colômbia dedicada a Portugal só porque eram de quadrantes distintos...