Salvação | Ana Cristina Silva

A minha mulher morreu há um mês. …Ela não vem e o meu choro redobra. De uma invulgar sensibilidade e numa escrita envolvente, este livro narra a oração permitida a um não crente. Quem perde a figura de Deus como objeto da sua devoção, apenas se pode consagrar ao amor nas suas diversas formas, sendo a mais dolorosa a que sofre com a ausência do outro. O protagonista-narrador vive um luto profundo pela morte da mulher, do qual só se consegue alhear, momentaneamente, quando retoma a sua escrita.

Cria um personagem, um médico judeu que foge de Portugal deixando para trás a mulher, desterrada para Angola na sequência de um ato de fé, e a filha ainda criança. Autor e personagem transformam-se no espelho um do outro. Do personagem, o médico David Negro, não se espera apenas a cura dos seus pacientes ou que estude com afinco a anatomia humana, procurando decifrar o corpo humano para lhe encontrar a terapia certa, sobretudo, aguarda-se que salve através do seu testemunho aquele que o escreve, o seu criador.

Abrir o livro com uma morte, essa dor total que nos invade pela perda de quem mais se ama, confronta-nos com o sentido da vida. Questiona-nos sobre o mérito de sobreviver à morte de um ente querido como um desfecho imerecido, como se à ordem do mundo algo fosse irremediavelmente subtraído. Os homens receiam pelo seu poder ao ponto de se tornarem intolerantes, e esse medo gera violência. A religião sempre foi uma forma de conservar o poder, desafiá-la leva à repressão, ao castigo com a bênção do seu Deus. Neste livro, defrontamo-nos com essa realidade ao longo dos tempos, uma violência gerada no seio de cristãos, judeus ou muçulmanos. Uriel, filósofo judeu, é fortemente castigado na sinagoga pelas suas heresias. Essa dor leva o ateu David Negro, que antecipou na história a ideia da morte de todos os deuses, a encontrar no discurso de apostasia de Uriel palavras mais próprias do Diabo.

Talvez o Deus que procuramos não seja mais do que o reflexo da nossa fragilidade e que ciência alguma poderá salvar. O autor ficcionado neste livro desce ao coração das trevas em busca do conhecimento dos seus personagens, nessa penumbra acredita existir uma luz. A mesma luz que o crente julga encontrar na oração. O que os distingue então, se não o que estão dispostos a fazer com essa busca? O filósofo Uriel no ato de matar falha a sua vingança. Que mão desviou a bala no último momento? Neste romance encontramos a mestria de quem sabe mergulhar no interior dos personagens revelando a sua alma, nessa interminável busca pelo sentido da finitude da vida de que, afinal, nenhuma religião nos salva.

Porque eu sou ela e ela sou eu, Sofia não está cá, mas também não partiu inteiramente.

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