Fotografia da minha autoria

«A releitura terá sempre outro impacto»

O meu propósito literário, para além de contemplar a descoberta de vários exemplares distintos, inclui regressar a enredos que me marcaram: pela mensagem, pelos protagonistas, pela identificação com os acontecimentos narrados. Além disso, por muito que conheçamos as histórias como a palma da nossa mão, acredito que as releituras nos abrem portas desconhecidas, transportando-nos para novas aventuras.

Embora faça poucas, não sinto que sejam uma perda de tempo. Nem que me atrasem, porque cada livro tem o seu tempo. E há alturas em que a nossa predisposição requer que voltemos a um contexto já explorado - quer pelo conforto que nos proporciona, quer para aprofundar certos conhecimentos. Portanto, quando sinto essa vontade, não me apoquenta priorizá-lo, até porque sei que refletirei sobre questões que, antes, não se manifestaram ou que eu não tive sensibilidade para compreender.

Assim, tenho cinco livros de autores portugueses que pretendo reler.

O AMOR É FODIDO, MEC

É o primeiro romance do autor. E coloca-nos em contacto com um amor violento, unilateral, pautado pela desonestidade. Ainda assim, preserva uma vontade imensa de acreditar - para além das evidências da mentira - e de ignorar comentários e observações alheias, pois o que sentimos é quase sempre mais forte, atingindo uma espécie de cegueira involuntária. Portanto, existe, então, uma certa dose de vertigem, uma aproximação do abismo e uma procura constante pela ausência de limites. Em simultâneo, desmistifica esse lado de conto de fadas.

OS LIVROS QUE DEVORARAM O MEU PAI, AFONSO CRUZ

É uma viagem bastante emocional. É um estreitar de laços. E um misto de sensações. Nesta narrativa, terna e maravilhosa, há uma passagem de testemunho, de memórias, de património literário. Além disso, os planos de ação fundem-se no mesmo nível de existência, revelando uma simbiose entre a realidade e a ficção, o que não só funciona como um refúgio para os problemas do quotidiano, como também nos permite compreender que, unidos a algo, é complicado delinear a fronteira que separa a razão dos sentimentos. Porque nós não somos um só compartimento: movemo-nos muito em função do que nos bate no peito.

A DESUMANIZAÇÃO, VALTER HUGO MÃE

Foi amor à primeira vista. Principalmente pela temática que aborda e que nos deixa tantas vezes a pensar sobre ela. Acho que nunca li um livro que falasse da morte com tanta beleza. Talvez seja estranho de se dizer, mas a descrição da dor de quem fica parece poesia para quem lê. Ainda assim, é um retrato de como tudo isto nos altera. Da angustia. Da sensação de vazio. Das memórias que nos atormentam. Da saudade que nos consome todos os dias. A constante sensação de que deixamos de viver, para passarmos a sobreviver, porque quando perdemos alguém perdemos uma parte de nós. E quando atiram o último pedaço de terra sobre aquela caixa fria, escura, que nada tem de belo, é como se nos enterrassem o suficiente para sentirmos que nos falta o ar.

ENCONTREI O PRINCIPEZINHO, 

JORGE CABRAL DOS SANTOS

É um livro que deve ser lido por crianças e, principalmente, pelos adultos. Apesar de toda a dor da perda, da angustia de se continuar sem respostas, da injustiça de algumas suposições, a mensagem é poderosa! Porque há sempre alguém que nos retira do poço de sofrimento em que, muitas vezes, caímos. Porque a beleza das relações, sejam elas de que ordem forem, está nessa capacidade de ajudar o outro sem hesitações. Além disso, demonstra o quanto o sentimento de gratidão é valioso. E a importância de dizermos às pessoas aquilo que significam.

EQUADOR, MIGUEL SOUSA TAVARES

É «um retrato brilhante da sociedade portuguesa nos últimos dias da Monarquia», que levanta imensas questões. Neste romance histórico existe um pouco de tudo: aventura, cenários exóticos, paixão, amor, jogo de interesses e poder. É um livro intenso, com uma profunda carga emocional e onde se sente a vida a acontecer bem de perto. Paralelamente, vamos encontrar na personagem de Luís Bernardo um conflito interno, a busca incessante por justiça e um sentido de honra vincado. É impossível ficarmos indiferentes ao seu percurso, até porque é através dos seus passos que conhecemos o desenrolar da ação.

Que obras querem reler?