YourcenarMisericórdia
Marguerite Yourcenar
O Golpe de Misericórdia
Dom Quixote
Tradução de Rafael Gomes Filipe

Com Primeira Guerra mundial a mostrar os últimos fôlegos, três pessoas encontar-se-ão numa terra de ninguém perdida na região báltica, partilhando os momentos do perigo e da ansiedade, mas sobretudo um prenúncio de tragédia. Eric, o narrador, instala-se em casa do seu amigo de infância, Conrad, relembrando o período de ouro que ambos partilharam e anotando, já com a distância entre os momentos vividos e a narração devidamente instalada, uma admiração pelo amigo cujos contornos são escorregadios, ali naquela fronteira ténue entre apreço e erotismo. Sophie, irmã de Conrad, completará o triângulo amoroso com uma paixão obsessiva por Eric, nunca correspondida e ainda assim alimentada, que acabará por levar ao desenlace da narrativa por um caminho que o bucolismo inicial do encontro entre os dois não deixaria adivinhar.

Na introdução que assina em 1977 para uma edição publicada na época, Agustina Bessa-Luís descreve O Golpe de Misericórdia como uma “espécie de educação sentimental para veteranos, ou seja, aqueles que aceitam o terrorismo dos mal-entendidos políticos e humanos”, e será difícil encontrar leitura mais aguda do curto romance de Yourcenar. Nos equívocos da linguagem e na densa muralha psicológica de Eric está a matéria que sempre alimentou os equívocos humanos e o labirinto matreiro dos afectos, expressa com a beleza e a crueldade que fazem deste um romance duro, implacável e imprescindível para a colecção dos textos que não falham na descrição daquilo que somos.

Sara Figueiredo Costa

(publicado na Time Out, Março 2013)