“Certa vez perto de Antofogasta/ entre as dissipadas vidas do homem/ e o círculo arenoso/ do pampa/ sem ver nem ouvir me detive no nada/o ar é vertical no deserto/ não há animais (nem sequer moscas)/ somente a terra, como a lua, sem caminhos/só a plenitude inferior do planeta/ densos quilômetros de noite e matéria,/ Eu ali sozinho, buscando a razão da terra/ sem homens e sem asas, poderosa/ só, em sua magnitude, como se houvesse/ destruído uma por uma as vidas/ para estabelecer seu silêncio”.
O bonito poema acima é o 22º. dos 28 reunidos em AINDA [Aún, em tradução de Olga Savary], que Pablo Neruda publicou em 1971, já no final da vida, e agora relançado pela José Olympio. Nele, encontramos uma das grandes verdades poéticas: o encontro com a realidade irredutível do mundo, divorciada da nossa existência humana. A própria simplicidade lapidar, como se só sobrasse o essencial, marca esse reconhecimento.
É uma pena que o leitor tenha de garimpar para achar momentos desse quilate em AINDA e em outras duas obras nerudianas relançadas recentemente (pela Bertrand): o gigantesco Canto Geral, sua mais famosa (mas certamente não a melhor) reunião de poemas, e Para nascer nasci, um exercício de prosa poética com título à Richard Bach.
AINDA se inicia com um projeto generoso. No primeiro poema anuncia-se: “devo aclarar ainda meus deveres terrenos”. E já nessa abertura encontramos versinhos preocupantes como “Tu, minha bela, dormindo ainda em agosto/ minha rainha, mulher, extensão e geografia”, ameaçando-nos com algo do tipo Thiago de Mello, o nosso Neruda dos pobres.
A partir daí o leitor tem de enfrentar uma série de poemas anódinos, opacos, em que conquistadores e descobridores da América deixam em testamento “um duradouro amor ensanguentado”, enquanto o solo americano resiste e persiste.
Neruda exercita o poemeto, mas nele o fôlego curto não convence, sempre poeta dos excessos, para o bem ou para o mal: “Ymbel!, Yumbel!/De onde/ saiu teu nome ao sol?/Por que a luz/ tilinteia em teu nome?/ Por que, pela manhã/ teu nome como um ano/ saiu soando das ferrarias?”. A luz tilinteia no nome e ele soa nas ferrarias, só que Yumbel não diz a que veio. E sempre a ameaça do escorregão à Thiago de Mello: “minha casa, meu Partido, no fogo de cada dia/ e tu mesma sulina, companheira de minha alma/ patrona de meus olhos, sentinela/ tudo que se chama chuva e se chama pátria, etc” !!?? Isso porque “foi meu destino amar e despedir-me”. Ora, ora. E os deveres terrenos, como ficam nesse amar e despedir-se? E lá se foram 15 poemas nessa brincadeira.
E a pieguice parece instalar-se de vez: “Para mim a felicidade foi compartir cantando/ louvando, imprecando, chorando com mil olhos”!!!??? (teria sido bom mais imprecação e menos olhos para chorar).
É esse o poeta de Residência na Terra? Há ainda pequenas redenções como o 17º. poema com toque drummondiano: “Minha poesia me incomunicava/ e me agregava a todos/ (…) Morreu a solidão aquela vez/ou nasci eu de minha solidão?” Não é o grande Pablo Neruda, claro, mas também não é a sua caricatura como tantos poemas seus parecem.
O poema seguinte também sobrevoa o conjunto decepcionante: “Os dias não se descartam nem se somam, são abelhas/ que arderam de doçura ou enfureceram/ o aguilhão: o certame continua/ vão e vêm as viagens do mel à dor./Não, não se desfia a rede dos anos: não há rede./ Não caem gota a gota de um rio: não há rio (…)/ a vida foi como uma pedra, um só movimento/uma única fogueira que reverteu na folhagem/ uma flecha, uma só, lenta ou ativa, um metal/ que subiu e desceu queimando-se em teus ossos”. Como se vê, estamos longe dos choros com mil olhos, dos amar e despedir-se, dos possessivos sentimentalóides: minha amada, minha casa, meu Partido, meu destino etc, como se fosse um avatar chileno da chorumela do etezinho spielberguiano.
E AINDA vai nessa gangorra. Depois de alguns bons momentos, a senilidade poética se instaura novamente: “Se encontras num caminho/ um menino/ roubando maçãs/ e um velho surdo/ com um acordeon/ recorda que eu sou/ o menino, as maçãs e o ancião”!!?? Parece que estamos diante daqueles malfadados (e a meu ver maléficos) “textos de fruição”, sempre “positivos” , das reuniões pedagógicas.
Pelo menos há uma vantagem: garimpar 60 páginas à procura do que vale a pena, se houver, é bem menos árduo do que fazer o mesmo com as 600 páginas de Canto Geral.
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de janeiro de 2003)





