(...) «E Eva, à semelhança, tentou enliçar-se nos braços rijos de Adão. A nuvem misteriosa, recurvando as pontas, lançara sobre o parque um velário, onde as laranjas quase luziam como pequeninos sóis a distância. Um suspiro de mil suspiros errava no ar.
-- Faze-me como as serpentes e como a nuvem -- disse para Adão a tentadora e subtil.
E o homem acedeu. Na encontrada dualidade, dor e volúpia, daquele braço, pressentiu Eva que haviam descoberto o perigoso fruto. Mas o sumo bem, que se lhes deparou, era mais forte que tudo -- Deus, a angústia, a guerra crónica. O temor de arrostar a cólera divina e o orgulho de devassar os enigmas celestes, por outro lado, mais fogo traziam ao seu fogo. A nuvem oscilou sobre eles e cambiaram as tintas; de escarlate, o ar coloriu-se do oiro do conseguimento, depois do fosco da saciedade; e a nuvem, alcandorada um instante como enorme avejão, desprendeu-se e librou-se nas alturas. Arquejantes mas risonhos, nossos pais compreenderam que haviam tragado o pomo em que se encerrava a peçonha do bem e do mal e que tudo o que Deus lhes dissera fora em tom de alegoria. Uma paz inquietadora paralisava o Jardim das Delícias. E ficaram transidos de ânsia, à espera.
Por cima deles repercutiu, a breve espaço, um formidável trovão que os atirou um contra o outro a bater os dentes de medo. Robles, castanheiros e olmos lascavam em sinistro fragor, e as aves, alucinadas, corriam o espaço, como setas na batalha dos Anjos Revéis.
Um serafim, de cenho raivoso e couraçado, veio voando do alto direito a eles. E, à espadeirada, enxotou-os para fora do horto, em volta do qual surgiram, de golpe, muros altos, insuperáveis.
-- Perdão, senhor Anjo! -- suplicou Eva, ajoelhando. -- Pecámos por ignorância...
-- Por ignorância!? -- ribombou a voz de Deus entre nuvens. -- Ser perverso e astucioso, já o teu coração tinha adivinhado antes de a tua carne o sentir. A mim não enganas tu! Há muito que a tua alma sofria entre o mistério e o desejo. Encontraste; agora ide, ide para o mundo sem fim, sofrer, lutar, correr por entre mil tormentas para a ténue emboscada dum gozo.
Eva soluçava; Adão, sacudindo a cabeça em rasgo de decisão, travou dela nos braços:
-- Que importa, se descobrimos o amor e decifrámos o enigma da vida! Que importa, se conhecemos os segredos de Deus!
A criação inteira rompeu empós. E até as aves em seu cantar pareciam dizer:
-- Também vamos, ó homem, para o mundo sem fim. Amor, és tudo!
As cancelas do divino horto fecharam-se de repelão; a terra e o céu ardiam, as ondas no mar ardiam.
Nossos pais meteram, de cabeça dobrada, contra o frio e o vento. Dos animaizinhos, não obstante não terem sido escorraçados do Jardim das Delícias, cada par, mesmo os mochos, disparou para seu souto. Ao fim do amplexo que povoou o mundo, uma voz melopaica murmurejou, subiu em acento, esplendeu num hino, a vida toda. E era um triunfal:
-- Amor, amor, és tudo! A ti nos rendemos na dor e na alegria! Amor, és tudo!»
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 48) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Triunfal»
literatura, mitologia, Eva e Adão, amor, filosofia
Texto originalmente publicado em Alcança quem não cansa
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