Agora ministro da Casa Civil, o senador pelo PP foi de petista a bolsonarista, e sela o casamento entre Bolsonaro e a “velha política”

CIRO NOGUEIRA/DIVULGAÇÃO/JC
Isabella Marzolla
O Presidente do Progressistas e figurão do ala fisiológica tomou posse do ministério da Casa Civil na quarta-feira (4) em uma cerimônia lotada no Salão Nobre do Palácio do Planalto, com direito à after em mansão no Lago Sul, em Brasília, oferecido por colegas. Ciro Nogueira era apoiador do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e fez campanha para o candidato do PT, Fernando Haddad, em 2018. No ano anterior, chegou a chamar Bolsonaro de “fascista”. Neste momento seu “cartão fidelidade” é do atual chefe do executivo, Jair Bolsonaro, que paga caro por isso.
Ao longo da semana passada, o senador licenciado e considerado um dos líderes do Centrão ainda frequentou uma série de almoços, jantares e sociais de parlamentares de diferentes espectros, do baixo ao alto clero político. Um encontro que confirma a agilidade do político a adentrar ardilosamente qualquer “tribo” foi o seu churrasquinho de sábado (7), com os Ministros Tarcísio de Freitas (Infraestrutura) e Fábio Faria (Comunicações) e com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, seus novos colegas de trabalho.
A ideia de Ciro foi a de assumir com classe e turbinar o objetivo principal e a razão pela qual ganhou o cargo do chefe: conquistar o máximo de Congressistas necessários para aprovar as principais medidas, projetos e reformas governistas antes das campanhas eleitorais de 2022.
Além, é claro, de reforçar entre os deputados federais e senadores uma camada à blindagem aos mais de cem caminhos de Impeachment possíveis legalmente, como através, por exemplo, do relatório da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pandemia.
No aquecimento para as campanhas eleitorais do ano que vem, Bolsonaro encontra-se com o capital político frágil, impopular entre o eleitorado, sem apoio coeso no parlamento – em especial no Senado, onde ocorre a CPI – e recentemente ameaçado pelo Poder Judiciário, com o qual cria conflitos e tece críticas ferrenhas e desfundamentadas desde que assumiu a Presidência.
Ciro Nogueira entra na Casa Civil para negociar, implorar, apelar ou comprar – fazer o que for preciso – para os políticos relevarem e até endossarem as estupidezes non sense que, por vezes, custaram vidas humanas, do atual Presidente do Brasil.
Bolsonaro e seu núcleo estão atolados até o colarinho em investigações, cercados de supostos escândalos de corrupção, “no aguardo” de dezenas de pedidos de Impeachment engavetados por Arthur Lira (PP-AI) e com pouco, ou quase nenhum, apoio popular.
Apesar dos arroubos agressivos, tresloucados e caóticos do Presidente, a partir de seus compadres e seus seguidores, é possível identificar alguns dos planos bolsonaristas para a reeleição do “capitão”. Bolsonaro precisa impedir que as investigações da CPI o ameacem ainda mais — por isso sempre desqualifica e menospreza o trabalho da CPI no Senado —, ganhar o povo com novos programas sociais, como o Auxílio Brasil, e torcer para que a epidemia de Covid-19 no Brasil acabe (verdadeiramente) para uma retomada da economia a todo vapor.
E se tudo der errado? Tumultuar as eleições na expectativa de uma intervenção militar a seu favor, seja com os bolsonaristas e o apoio (ou não) dos Policiais Militares e baixo escalão do Exército.
Mas o quão articulado e persuasivo é Ciro Nogueira para salvar Bolsonaro? A articulação política de Nogueira é boa o suficiente para liderar uma massa de políticos que trocam de espectro e convicções políticas por conveniência, ele é um político clássico, fisiológico, que sabe ler as pessoas e seus anseios, mas que no fundo luta por nada, ou melhor, por si mesmo.
Formado em Direito pela PUC-Rio, perfeito para o novo cargo de advogado do Diabo, e com sangue da política correndo desde o berço em suas veias, Ciro Nogueira Lima Filho faz parte de uma família de políticos. Seu avô foi prefeito, seu pai deputado federal pelo estado do Piauí duas vezes, seu tio deputado federal pelo estado do Ceará, sua ex-mulher deputada federal e sua mãe recentemente empossada senadora.
Aos 52 anos, ele está em seu 2º mandato como senador. Antes, foi deputado federal por 4 termos consecutivos. No Congresso, em 26 anos, teve 2 projetos convertidos em lei e sancionados pelo governo federal: um dos projetos garantia a identificação genética para condenados por crime de violência; o outro, que alterou o Código Penal, estava relacionado com o crime de incitação ao suicídio.
O senador já se envolveu em escândalos de corrupção. É investigado, no âmbito da Operação Lava-Jato, por organização criminosa em suspeita de um esquema de desvios na Petrobras. O caso tramita no Supremo Tribunal Federal (STF).
Nogueira entra no considerado coração do governo, a Casa Civil, uma pasta estratégica para a articulação política do Palácio do Planalto com o Congresso e responsável pela coordenação entre os Ministérios.
Em seu discurso de posse, Ciro disse que “teria sido mais fácil” recusar o convite, “mas não teria sido mais certo”. Em sua fala, defendeu a democracia como algo “líquido e certo”. Ele também disse que: “O meu nome é temperança e o meu sobrenome tem de ser equilíbrio”.
Com o Centrão no coração e em pastas importantes do Governo, fica cada vez mais evidente a contradição ambulante e destemperada que é Bolsonaro, que foi eleito em 2018 com críticas a esse grupo de partidos, que ele chamava de “velha política”, e hoje diz pertencer ele próprio ao Centrão. Seu governo de extrema direita é e sempre foi de coalização, ou como ele mesmo disse a uma rádio de Curitiba: “Eu sou do Centrão”.