12
Mai20
Maria do Rosário Pedreira
Todos sabemos que muito do que se escreve tem como base a realidade. Se, por exemplo, Melville não tivesse trabalhado numa baleeira, provavelmente não teria escrito Moby Dick. Muitos escritores, mesmo sem o pretenderem, deixam escapar para os seus textos experiências pessoais ou episódios a que assistiram ou de que tiveram conhecimento. Mas, quando na vida real aparece uma história que, afinal, já tinha sido escrita, é mesmo incrível... E nem se pode dizer que os seus intervenientes tenham sido inspirados pela leitura do livro porque isso não aconteceu, foi mesmo mera coincidência. Quando William Golding escreveu O Deus das Moscas, não tinha a mais pequena ideia de que, em 1966, meia dúzia de adolescentes fugiriam de um colégio interno em Tonga num barco de pesca (queriam ir até à Nova Zelândia, calculem) e, apanhados numa tempestade, acabariam por ir dar a uma pequena ilha deserta onde viveram (sobreviveram) mais de um ano completamente sozinhos. Em casa, já lhes tinham, de resto, feito o funeral quando foram encontrados por um navegador australiano que não queria acreditar como os jovens tinham conseguido subsistir naquele fim de mundo e criado do nada uma sociedade bastante organizada (até um campo de badminton tinha) e extremamente solidária (um deles caiu de uma ravina e partiu uma perna e os outros foram buscá-lo, correndo risco de vida, e trataram-no tão bem que os médicos se supreenderam mais tarde quando viram o raio X). Vale mesmo a pena ler o artigo maravilhoso do The Guardian que conta esta história rocambolesca e perceber que, na realidade, não houve lutas pelo poder, como no romance do escritor britânico vencedor do Prémio Nobel. (Esperança na humanidade?) Deixo-vos o link, parece ficção, mas não é.
Além dos dois títulos já referidos no post, recomendo mais dois livros sobre adolescentes em grupo deixados sozinhos: O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, e Casa de Campo, de José Donoso. Qual deles o melhor.