Tentei saber o mínimo sobre o caso antes de ler o livro. E que livro belo.
A história tem corrido o mundo (e ainda bem) por causa do filme. Uma mãe de cinco filhos, Eunice Paiva, era casada com o ex-deputado Rubens Paiva. Em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura militar brasileira. Eunice também. Quando chegou à prisão e viu a fotografia do marido, sentiu alívio. Afinal, ele também estava ali, ele estava bem. Esteve presa dez dias. Pouco depois, esteve a nadar em Búzios. Sim, o marido estava preso mas já lhe tinham dito que ia ser libertado e ia correr tudo bem.
Na verdade, Rubens foi torturado e morto. O corpo enterrado para nunca mais ser encontrado. Foi um dos muitos Desaparecidos da ditadura brasileira.
Mas a história é sobre Eunice. Com cinco filhos, foi para a faculdade e tornou-se advogada. Mais do que isso, tornou-se uma excelente advogada que, entre várias causas, defendeu os direitos indígenas.
Só 25 anos depois da morte do marido, Eunice teve acesso ao certificado de óbito.
Ela ergueu o atestado de óbito para a imprensa, como um trunfo.
Foi naquele momento que descobri que estava ali a verdadeira heroína da família; sobre ela que nós, escritores, deveríamos escrever.
Noutro dia, li numa newsletter que ler é um acto político e lembrei-me logo deste livro. Não sei se todos os livros têm algo de político neles, mas a maioria certamente que sim. Toda a nossa vida, quer queiramos quer não, é determinada por fatores políticos. E este livro é um acto político. O que aconteceu no Brasil, aconteceu (e ainda acontece) em muitos outros países.
Éramos «A família vítima da ditadura». Apesar de preferirmos a legenda «Uma das muitas famílias vítimas de muitas ditaduras.»
Uma das críticas negativas que li sobre este livro dizia que ele saltava muito entre partes. E é verdade mas, para mim, fez todo o sentido. Este é um livro de memória. A falta da memória da mãe, Eunice, que sofria com Alzheimer aos 70 anos, as memórias de Marcelo com o filho bebé, a memória de 25 anos à espera que se fizesse justiça.
Também fui ao cinema ver a adaptação com Fernanda Torres. E que filmaço. Ao contrário do livro, o filme segue a ordem cronológica, que achei a melhor escolha, e é um filme muito bem conseguido. O contraste entre a vida vibrante e colorida no Rio de Janeiro com o preto e branco da prisão é genial. Se não lerem o livro, pelo menos, não percam este grande filme.
