As profissões liberais, em especial médicos e advogados, são, segundo Richard Sennet (no livro Autoridade, que comentei aqui outrora), uma das primeiras formas modernas de autoridade: em um mundo em que quem oferece o produto vai atrás do cliente, tentando seduzi-lo, essas duas figuras – preponderantemente o médico – vêem os clientes caírem aos seus pés, pois desses profissionais depende, muitas vezes, a própria vida. O médico pode muito bem não querer atender ou atender mal, e o paciente tem que torcer por uma terceira opção. Esses são dois motivos pelos quais são os médicos e advogados que praticamente patentearam o título de doutor e se apropriaram indevidamente deles, a ponto de poder ser considerado crime um “cidadão comum” não chamar um juiz de doutor.
Dito isso tudo, é natural, ao menos para mim, que haja uma dose de resistência a essas duas classes: na faculdade sempre são vistos como aqueles que têm o rei na barriga, seus vestibulares estão entre os mais concorridos (este cenário se degradou bastante para a turma de direito com a Unit, para citar apenas um caso local, formando 5 mil bacharéis por semestre).
E aí vem você com um médico desses… O que dizer disso? Formou-se pelo Instituto Universal Brasileiro? Pode ter aprendido a fazer um diagnóstico, identificar partes do corpo humano, mas não conseguiu escapar da obtusidade crônica, agravada por uma vocabulite aguda. Para quem não entende de medicina – desta medicina à qual me refiro no momento – obtusidade crônica é uma doença de nome autoexplicativo, cujos sintomas são a total incapacidade de discernir entre o que é importante e o que é completamente irrisório. Não há tratamentos conhecidos, mas humildade ajuda bastante. Já a vocabulite é uma doença que se caracteriza pela perda da capacidade de identificar palavras. Há a vocabulite leve, quando você passa a não identificar palavras complexas; a mediana, quando você perde a capacidade de reconhecer palavras com as quais você conviveu provavelmente no ensino médio e, finalmente, a vocabulite aguda, quando você praticamente só reconhece as palavras usadas na sua área de atuação, ignorando o significado de palavras simples ou corriqueiras. Um teste simples para averiguar o estágio terminal desta doença é pedir para soletrar a palavra “exceção”.
Esta é uma doença que tem cura. Normalmente, com o tratamento, o doente vai passando do estágio mais grave para o estágio mais ameno, até obter a cura completa. O único remédio conhecido são os livros. Todavia, o tratamento é a longo prazo e somente devem ser utilizados livros bons. Nada de Paulo Coelho, Crepúsculo ou Livros de Piadas.
MORRO DO QUE HÁ NO MUNDO – Cecília Meireles
Profissões liberais, Medicina, Direito, Crítica social, Autoridade, Educação e leitura
Texto originalmente publicado em Catálise Crítica