09

Set25

Maria do Rosário Pedreira

Hoje, fala-se muito de autoficção quando, num conto ou romance, o lado autobiográfico é assumido pelo autor desde o início; e, por muito que alguns achem que isso é uma espécie de literatura menor por contar o real sem ter de recorrer à imaginação, a verdade é existem obras completas autoficcionais que dão direito ao Prémio Nobel da Literatura, como foi o caso da de Annie Ernaux, autora que nunca escondeu que os seus livros falavam acima de tudo de si própria. Foi, de resto, esta escritora e o seu O Acontecimento (a história de um aborto que terá feito) que espicaçou a escritora Colombe Schneck, judia parisiense nascida em 1966, cuja mãe se salvou dos campos de extermínio escondida num convento católico durante a Segunda Guerra Mundial, a escrever também uma ficção sobre uma gravidez indesejada (e descuidada) que lhe "aconteceu" aos dezassete anos e que desencadeou um aborto. E essa é só a primeira e maravilhosa história de Trilogia de Paris, um tríptico esplendoroso no qual aprendemos como vivem os verdadeiramente ricos, as roupas de alta-costura que recebem das avós e as férias em Saint-Tropez, mas em tudo o resto iguais a nós, excepto numa espécie de contenção a que o estatuto aristocrático os obriga e que aqui é especialmente visível na ficção chamada «Duas Burguesinhas», título que pressupõe já uma certa frontalidade que não inclui qualquer vergonha (não escolhemos em que família nascemos). Esta trilogia de momentos vividos em Paris é de uma sinceridade sem limites e, como a descreveu Deborah Levy, possui uma «escrita valiosa», representa «um estudo profundo sobre a existência em várias idades e fases da vida». Eu adorei.