Lembro que, depois de assistir Adeus, Minha Concubina, do cineasta chinês Chen Kaige — vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1993 —, ficamos profundamente marcados pela história de dois atores da Ópera de Pequim, arrastados pelas transformações políticas da China ao longo do século 20, da ocupação japonesa à Revolução Cultural. O filme revelava com força o fanatismo ideológico e a impossibilidade de viver de acordo com a própria identidade. Eu, como muitos da minha geração — a julgar pelos depoimentos da época —, senti uma compaixão duradoura por aqueles personagens e um ressentimento que nunca se dissipou diante da implacabilidade do totalitarismo chinês, que, entre tantas proibições, lhes negava viver justamente o sentimento mais primordial do ser humano: o amor.

Pode-se imaginar, agora, a surpresa ocasionada recentemente pelo livro Histórias de amor no novo milênio (Fósforo Editora, 2025; tradução de Verena Veludo Papacidero), da chinesa Can Xue, pseudônimo de Deng Xiaohua (1953), que não só ressuscita o amor, mas lhe confere o dom da onipresença e da onipotência na China de ontem e de hoje, seja rural, seja cosmopolita.

A autora — informa a orelha — frequentou apenas o ensino fundamental e trabalhou em uma tecelagem, tal como a senhorita A-Si, protagonista do romance. Cansada da monotonia do trabalho, A-Si passa a frequentar uma estação termal “que também oferecia serviços sexuais”. Com naturalidade, ela e a viúva Cuilan (Orquídea Esmeralda) — futura amiga que trabalhava em uma fábrica de sabão — passam de operárias a profissionais do sexo, ao lado de outras mulheres que, nesse novo espaço, encontram e oferecem prazer, conquistam o reconhecimento de si e reivindicam, enfim, o “direito à felicidade”.

A escritora Can Xue. Foto: Divulgação Fósforo Editora.

É claro que o livro tem muitos outros méritos: as assombrações (quadros de Dalí), as visões oníricas (paisagens de Escher), o amor pela flora (o cinamomo da calçada que floresce), pela fauna (os escorpiões vermelhos libertos), pela quebra da rotina (seria esse o verdadeiro significado de “lar”?), pela imaginação (“estou cercada de cores, na minha imaginação”), pela medicina chinesa (“as ervas são tão mágicas. A terra sabe o que cultivar”), pelo papel do acaso (“ela vivia em círculos: o que encontrava era exatamente o que desejava”) — e assim por diante.

Com a mesma desenvoltura, essa septuagenária autodidata fala de Shakespeare, Kafka, Borges, Calvino e… Dante: “É como dizer: tuas caracterizações da violência devem ter forma, devem ter um sentido metafísico em si. Exatamente como as imagens de Dante: devem representar os verdadeiros conflitos, profundos, dentro da alma”, afirma ela em entrevista a Dylan Suher. Como diz o ditado popular: que Deus lhe conserve a visão, que o resto não falta…

Mas, na obra de Can Xue, nunca se fala em política. Ou melhor, há apenas uma única menção, nestes termos: “O Dr. Liu ouvira falar por alto da Grande Conexão Mundial [movimento lançado por Mao Tsé-Tung para implementar a Revolução Cultural]: o primeiro grupo que veio a Chao tinha três pessoas, todas vestidas de camisas longas e pretas…”. E nada mais. É verdade que, como observam seus entrevistadores (Dylan Suher, entre outros), “Can Xue has no interest in Chinese folklore or politics”. Ainda assim, como conciliar essa recusa com uma realidade que, para tantos — cineastas e intelectuais como Zhang Yimou (Tempo de Viver, 1994), Jia Zhangke (Um toque de pecado, 2013) ou Wang Bing (Juventude: Tempos Difíceis, 2024) — continua traumática até hoje?

Exatamente o oposto ocorre com a sul-coreana Han Kang (1970) em Sem despedidas (Todavia, 2025, tradução de Natália T. M. Okabayashi), livro que lhe valeu o Nobel de 2024. Aqui, a política não é apenas uma realidade, mas um pesadelo que persegue a(s) narradora(s) através de outros pesadelos, até finalmente, talvez, resolver-se em arte.

Han Kang por Jean Chung.

A trama é simples. Kyung-ha, uma escritora de Seul, vai visitar sua amiga Inseon, artista plástica que trabalha com madeira e cineasta experimental, com quem havia planejado realizar um filme sobre certos troncos de árvore carbonizados que insistiam em aparecer-lhe em sonhos, sem que ela soubesse o porquê. Só que Inseon machucou a mão (cortou os dedos na serra elétrica justamente enquanto cortava troncos) e está em tratamento no hospital. Ela pede a Kyung-ha que vá até a ilha de Jeju, a cerca de 500 km de Seul, onde vivia com a mãe debilitada e onde ainda reside, para cuidar por alguns dias do pássaro de estimação, Ama, que ficou sem poder ser alimentado. Ao chegar de avião, Kyung-ha é surpreendida por uma terrível tempestade de neve e, já a caminho, não encontra onde se abrigar. A noite cai e a situação vai ficando terrível: ela não apenas duvida de conseguir chegar à casa para salvar a ave, como também teme pela própria sobrevivência. Pesadelos e cenas alucinatórias a assaltam e envolvem os leitores como torvelinhos de neve. É um dos momentos mais poéticos e mais impressionantes do livro.

Finalmente, ela consegue chegar à casa de Inseon, mas as alucinações continuam. A passarinha que devia ser salva está morta, embora Kyung-ha continue a vê-la voar pelo quarto. No dia seguinte, enterra-a no jardim, sob a neve, ao lado do companheirinho Ami. Os troncos das árvores parecem figuras esqueléticas e, desse modo, evocam cenas dantescas, de assassinatos e mutilações. O leitor desconfia que algo de terrível deve ter-se passado naquela ilha. Kyung-ha desmaia na cama, não se sabe por quanto tempo, e, a um certo momento, tem a impressão de ver Inseon, que teria chegado do hospital. Inseon retira algumas caixas da estante e começa a remexer entre os papéis deixados pela mãe, que morrera sem conseguir localizar o irmão desaparecido durante uma chacina na ilha. Há muitos recortes de jornais sobre isso e, aos poucos, fragmentariamente, o leitor passa a ter uma ideia do que aconteceu.

A presença da História

As cenas remetem à carnificina ocorrida entre 1948 e 1949 na Coreia do Sul, um ano antes da eclosão da Guerra da Coreia, precisamente na ilha de Jeju. O massacre foi conduzido por autoridades sul-coreanas que viam em habitantes locais supostos filo-comunistas vindos da Coreia do Norte. Estima-se que dezenas de milhares de civis tenham sido mortos, vilas inteiras destruídas e inúmeras pessoas presas arbitrariamente — um trauma coletivo que perdura até hoje, não “curado” pelas desculpas oficiais nem esvaecido da memória dos familiares.

No livro, há referências sumárias aos Estados Unidos, que reagiram à invasão da Coreia do Sul pela Coreia do Norte em 25 de novembro de 1950 e teriam espalhado folhetos prometendo que os que se rendessem não seriam punidos. Quanto à responsabilidade americana, historiadores argumentam que o papel dos Estados Unidos — potência militar que controlava o sul da península no pós-Segunda Guerra — estaria subinvestigado, o que limita as possibilidades de uma reconciliação plena. Assim, a “cura” não é apenas questão de reparação interna sul-coreana, mas envolve uma dimensão internacional histórica.

Aos poucos, a neblina que obnubilava a mente de Kyung-ha se dissipa, e ela percebe que Inseon está realmente ali. Quando consegue encadear as divagações da amiga sobre o passado da ilha e da família, já é noite. À luz de uma vela, ambas se dirigem ao jardim. Pegada após pegada, passando pela árvore sob a qual os dois passarinhos foram enterrados, chegam ao fim do pátio. Apoiam-se no muro e pulam para o outro lado. Sempre guiadas por Inseon, entram na floresta e, depois de muitas voltas, chegam ao lugar onde estivera a mãe falecida. Inseon relembra:

Dentro da imagem consecutiva do meu sonho a luz brutalmente maravilhosa penetrava entre os espaços das folhas e criava dezenas de milhares de pontos iluminados. Formas de ossos reluziam por cima daqueles círculos…Não é coincidência o fato de que naquele inverno trinta mil pessoas tenham sido massacradas nessa ilha, e no verão do ano seguinte, mais duzentas mil na península (…). Passaram-se dezenas de anos até que os montes de bolinhas de gude e os pequenos crânios perfurados fossem escavados nos vales, na mina e na pista de decolagem. E ainda há ossos misturados entre si, enterrados. Aquelas crianças. 

Crianças mortas em prol de um extermínio.”

É nesse momento que tanto uma quanto a outra descobrem o significado dos troncos e do projeto que, agora sim, poderão realizar: a arte irá resgatar e, quem sabe, cicatrizar a memória indelével.

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Inspiração coletiva

Em suas entrevistas, contrariamente a Can Xue, Han-Kang não cita nenhum autor em especial. “Desde que eu era criança, todos os escritores foram um coletivo, para mim, procurando sentidos na vida. Às vezes perdidos, às vezes determinados, e todos seus esforços e sua força têm sido minha inspiração. Por isso é difícil para mim escolher um deles. É muito difícil para mim.”

E, quando lhe perguntam por qual de seus livros recomendaria começar — imaginando, talvez, A vegetariana (2007) —, ela responde: “Acho que todo escritor gostaria que começassem por seu livro mais recente. Então leiam meu livro mais recente: Sem despedidas.”


Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.