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Arquiteta fundadora do MASP, Lina Bo Bardi ganha biografia caudalosa no momento de expansáo do museu
Bruno Pernambuco
Uma retomada de projetos que marcaram a identidade de diferentes metrópoles. Um relato íntimo, de traços memorialistas, ilustrado por passagens de diários e registros de antigas conversas que permaneceram. Tudo isso é Lina: Uma Biografia, de Francesco Perrotta-Bosch, novo título da Editora Todavia. Momentos se repetem, na narrativa dos anos de formação e atividade de Lina Bo Bardi, em seu país de nascimento, Itália, e em seu país de escolha, o Brasil. Passagens narram o mesmo acontecimento a partir de diferentes pontos de vista. Uma inversão de perspectiva é traçada: quem refletiu sobre o tempo, buscando traduzir na arquitetura e na exposição uma expressão sua fora dos confins da linearidade ocidental, torna-se sua personagem, transformando-se com sua passagem, padecendo com seus efeitos.
Começo e fim se entrelaçam na narrativa, assim pensada, da vida da personagem principal. A estrutura emaranhada, calculadamente caótica, abrindo-se às interpretações, é a principal marca de Lina: Uma Biografia. Da mesma forma que a aproximação entre obras de épocas e autores distintos, na organização pensada por Lina para o acervo do MASP, ressalta semelhanças que não são vistas pelo estudo tradicional da história da arte, a sobreposição dos tempos sugere sentidos, amplos, em que os acontecimentos reverberam sem a limitação de um sentido único e direto.
A transfusão da personagem firmemente para dentro do emaranhado dos acontecimentos é uma forma de resgatar tanto a memória pública quanto a memória pessoal de Lina- e, mais do que isso, talvez seja a única maneira de unir as diferentes facetas da personagem que, apesar da “limpidez e clareza de sua verdade”, como define Eucanaã Ferraz na contracapa dessa primeira edição, é interminavelmente múltipla, instável na expressão de sua palavra, e que deixa na memória de suas ações, e nas intervenções sobre um país que escolheu para ser seu, um legado que exige um olhar mais apurado, um retorno, uma reinterpretação.
O Áspero da Liberdade
Assim como o vão, o espaço livre, transitório, inútil segundo o tempo precificado e metrificado, promove a “arquitetura da liberdade” (como, em passagem narrada no livro, descreveu o músico John Cage ao passar pelo observatório que dá para o córrego Nove de Julho), a narrativa dos fatos, o cronismo, o relato que se abre à demora dos detalhes, e à multiplicidade de interpretações da memória, também promove uma forma de “escrita da liberdade”. A prosa de Perrotta-Bosch joga o leitor para dentro de um encontro sem dar manual de como desfruta-lo. Não há organização certa, forma esperada de ordenar os fatos do tempo, nem mensagem única, sem contradições, que surja dos acontecimentos. O desconforto trazido pela liberdade é um efeito pensado , presumido na construção do espaço intermediário, e da mesma forma é um efeito movente para o texto, que acorda e mobiliza o leitor para aquilo que está sendo contado.

A inovação literária não quer dizer que Lina não seja uma narrativa feita com todo o amparo em documentos históricos que se espera de uma biografia tradicionalmente organizada, e o olhar dirigido para as individualidades, e para a repercussão dos fatos dentro segundo esse tempo pessoal, de forma alguma prescinde que as histórias narradas sejam contextualizadas dentro de seu momento histórico e de seu impacto social. Mas nessas passagens, destacadamente, o relato do fato público, conhecido, se mistura às impressões e reflexões individuais, sendo reforçadas passagens que destacam o desdém pessoal de Lina pelas figuras da alta sociedade brasileira, vinculadas a seu círculo e aos mecenas que financiaram os projetos mais célebres em que se envolveu. Em nenhum relato, talvez, essa mistura se faz tão clara, quanto nos momentos de elaboração do projeto do Masp e na inauguração da primeira sede do museu. As reflexões particulares de Lina- ora aparecendo em declarações públicas que ficaram registradas, ora tiradas de registros íntimos, diários, cartas trocadas com o marido Pietro- se misturam com a narrativa que acompanha o nascimento da instituição. Há um sentido de formação latente, que se faz sentir tanto na arquiteto que transforma sua identidade em um país que virá a ser seu quanto nas mudanças culturais que borbulham durante a gestação de sua primeira marca na nova terra.
O relato de outras obras, também, desvela outros percursos sentimentais. Na narrativa da construção do Sesc Pompéia, a partir do velho prédio industrial, há um retrato tenro e sincero da presença de Lina no dia a dia, de sua relação com os trabalhadores, suas inspirações, e da forma com tons acidentais através da qual surgiram elementos que manifestam a identidade do edifício. Acompanhando o processo de seu trabalho em Salvador, que abarca os projetos do Teatro Castro Alves e o Museu de Arte Moderna da Bahia, dentro do complexo do Solar do Unhão, sua influência sob uma geração de artistas e intelectuais baiana- narrada, em outras ocasiões, em belas palavras por pupilos da época como Caetano Veloso- aparece num relato pessoal, mostrando-se visitas à filmagens de Deus e o Diabo na Terra do Sol, e a amizade pessoal que se misturava à admiração pelo trabalho de Mário Cravo Filho.
As disputas- via de regra entre figuras de famílias tradicionais da região- em que suas obras estiveram no centro também são narradas intersectando, na história oficial dos poderosos, as observações e sentimentos do momento de Lina. Estas escolhas na forma de narrar os fatos evidenciam outros lados das histórias conhecidas. Humanizar as figuras que tratavam dos desmandos torna-se uma forma de expor o ridículo que atravessa as situações, de apresentar como muitas vezes a decisão a respeito daquilo que é público- sujeita, em última instância, ao interesse de pequenos grupos que controlam todas as etapas de sua formação- acontece aparentemente como um resultado de desejos e excentricidades pessoais. Essas contradições movem o livro; a escrita ganha força ao misturar à cronologia oficial esses elementos que estão na sombra. Nada deixa de ser claro, no relato da biografia, por se apresentar sob o prisma áspero e dual da individualidade.
O País no Museu
O trabalho de Lina, no Brasil é descrito na obra a partir de dois campos principais: um o da edificação, da obra pública e de sua identificação com o espaço urbano em que se faz presente, e outro- uma atividade que evoca os primeiros anos de trabalho na Itália, e que atravessa toda a carreira de Lina e que é especialmente visível em sua curadoria e organização de exposições- o de um estudo dos objetos pessoais, da história dos usos domésticos.

Há diferentes momentos em que essas duas vertentes se encontram., traduzindo assim uma realização do projeto de Lina. Em diversas passagens do livro, uma inspiração que revela algo a respeito da identidade de seus projetos mais famosos surge nos objetos “invisíveis”, utilizados pelo público, ou nos espaços de transição, ou de uso íntimo dos visitantes. As escadas, no MAMB, no MASP e no Sesc Pompéia, as cadeiras do auditório do prédio da Rua Sete de Abril, onde o MASP funcionou pela primeira vez, os refeitórios e banheiros desses espaços.
O principal momento, no entanto. em que esses dois polos se entrelaçam numa ação prática que reflete facetas do pensamento e da realização artística da arquiteto está no estudo e na exposição do que Lina chamou de “Pré-objetos”- uma “descoberta” que foi especialmente marcante no começo de sua atuação em Salvador, marcou um momento em que sentiu, pela primeira vez, refletir em sua atuação sobre algo verdadeiramente próprio do Brasil, e permaneceu como uma influência para todo o trabalho que ela viria a produzir posteriormente. É um esforço deliberado o de trazer para dentro do museu artefatos cuja manufatura é anterior à arte. Que mantém sua função imediata de sobrevivência, como bacias, cestos de comida e de roupa, transporte de tudo aquilo que é necessário à vida, para além da figuração e dos sentidos trazidos pelo reaproveitamento do descarte industrial. Ao construir uma exposição que apresenta esses utensílios, numa das primeiras atrações do MAMB, Lina tanto apresenta uma provocação ao sentido da obra de arte quanto inverte a função esperada do museu. O choque se torna parte do sentido daquilo que é exposto, de forma que o espanto com a descoberta dos pré-objetos, dentro do ambiente controlado, imite o espanto causado no olhar treinado pelos instrumentos.
Essa experimentação, e essa reflexão constante quanto ao sentido do museu se fez presente em todos os projetos de Lina- na busca por outros caminhos, outros dispositivos que permitam o encontro do visitante com a obra de arte de uma forma peculiar- e leva também, em um sentido prático, à outras experiências, como a do projeto do museu-escola. Um conceito de formação, tanto profissional quanto cultural e intelectual, é inexoravelmente ligado com isso ao espaço do museu. O sentido da exposição das obras de arte não se enfraquece, se engrandece ao introduzir-se essa mácula ao mundo hermeticamente fechado.
Uma biografia erudita e popular, Lina cumpre muito bem, com a emoção da história pessoal que se junta o trabalho de colocar sua personagem no centro do emaranhado do qual ela buscou traduzir o sentido. O faz a partir de um signo- o tempo atravessado, retalhado, sobreposto em vez de seguido- que é capaz de transpor o movimento e a força do trabalho de sua personagem-título para a escrita da obra. Com isso, recupera sentidos políticos e sociais dos projetos e acontecimentos da época em que ocorreram que provocam um impacto imediato em quem lê, em perceber as manifestações atuais dessas questões que estavam colocadas. Mas, sobretudo, o livro mantém o caráter biográfico do relato da formação de uma inteligência e de uma sensibilidade artísticas, ao narrar as transformações pessoais respeitando a verdade de cada momento.
Lina: Uma Biografia, é um relato a respeito de Lina Bo Bardi, que não a limita nem a ela mesma, em sua intimidade, e em suas reflexões, nem ao reflexo que se faz ver um pouco em cada um de seus projetos. Para falar de uma figura de tanta importância na história moderna brasileira, e que combina com sua atividade uma reflexão pessoal permanente a respeito de seu meio e de seu trabalho, é necessário um retrato retalhado, que não nega o rosto original, mas que a partir dos cacos, em encontros e organizações inesperadas, produz também figuras novas.
- Lina: Uma Biografia (ed. Todavia)
- Francesco Perrota-Bosch
- 2021 576 p.p