Foram muitas rogas e rezas, muito tempo passado diante do seu altar. Tempo demais, meu deus!/ Rep.A Criação do Homem, Michelangelo. Por Isabela Nunes* Eu cansei de falar sobre você. Cansei de falar sobre seu sorriso, seu silêncio, sua beleza. Cansei da adrenalina que falar sobre você me trazia, da agitação, do coração pulsando — primeiro pela expectativa, depois pela ansiedade, finalmente pela tristeza. Cansei de passar horas pensando no que você acha de mim, reflexão literal porque não fazia nada mais que revelar o reflexo embaçado do que eu já pensava sobre mim mesma. Eu andei pensando sobre outras coisas, e andei pensando que cansei de você. Eu te montei um altar, sabia? Coloquei velas e fotografias. Milhares de pedacinhos de mim como oferenda. Esculpi no mármore branco uma estátua monumental na forma perfeita que você deveria ter. Seu rosto mudou de forma incontáveis vezes e inúmeros foram os nomes que te dei, mas era sempre você ali. E sempre eu aqui, de joelhos, fazendo-lhe uma prece. Te pedia que me amasse e me mostrasse um caminho e me fizesse feliz e me desse um sentido. Te pedia luz e em troca eu lhe daria tudo de mim, cada pedaço explorado e inexplorado, cada oração e pensamento. Era uma troca justa: você me daria o nada — nada de dor, nada de dúvida, nada de perguntas não-respondidas — e eu lhe daria tudo que eu tinha. O que de fato fiz, por muito tempo, por tempo demais. Dei tanto de mim que mal pude me reconhecer, mal pude dizer o que é que eu estava dando afinal, se meu eu tinha se tornado ínfimo diante do você divino, se não havia restado nada do que eu era — nada, como eu queria, mas não o nada que eu queria, se é que isso faz algum sentido. Porque ali continuava a dor, a dúvida e as milhares de perguntas. Você me daria o nada — nada de dor, nada de dúvida, nada de perguntas não-respondidas — e eu lhe daria tudo que eu tinha Ainda assim, eu me ajoelhava e implorava, todos os dias. Meu deus, por favor me ajude. Deus, por favor não tire mais de mim, por favor me deixe manter esse resto, por favor não me deixe vazia. Por favor, não me veja vazia. Eu te imploro, meu deus, meu tudo, minha estátua monumental, meu espelho, meu amor, meu que quer que seja, me dê algo em troca. Me dê o que eu te pedi, dê-me o que você prometeu, dê-me a luz. Por favor por favor por favor. Amém. Foram muitas rogas e rezas, muito tempo passado diante do seu altar. Tempo demais, meu deus!, Até que eu percebi que você não era deus nenhum. Que você não me traria nenhum sentido, nenhum caminho, nenhuma luz. Até que eu me dei conta de que você tinha ao mesmo tempo mil faces e nenhuma; de que você era ao mesmo tempo todo-poderoso e impotente; de que você era espelho e ilusão. Tempo demais até que eu finalmente me cansei de você. Então, eu declaro aqui uma desapoteose: desfaço seu altar, assopro as velas, rasgo as fotografias, quebro o mármore. Nenhuma prece será feita a você mais. Agora eu rezo a mim e declaro uma nova apoteose. E o altar, que antes tomou tantas formas, agora é meu. *Isabela Nunes é pesquisadora da USP. Escreve Mensalmente.