11
Mar22
Maria do Rosário Pedreira
De um autor recentemente agraciado com o Prémio da Fundação Inês de Castro pelo conjunto da obra, aqui vai:
Chegam e entram. É o momento em que a menina Cláudia pode finalmente olhar para Mariano, frente a frente. O homem. Tenta mirá‑lo de um modo disfarçado, com o vagar de quem espera encontrar nele algo de secreto que afinal não existe, a começar pelos olhos, os traços do rosto, os ombros fortes, as mãos grandes e campestres, apesar de bem tratadas. Olha‑o, estuda o que nele falta decifrar. A firmeza dos dedos e dos pulsos. As expressões do olhar, o movimento emotivo dos lábios. Não se parece nada com o que lhe disseram dele: é alto, aprumado, um bonito homem com mãos de milhafre e sobrancelhas encrespadas sobre uns olhos parados – amarelos e frios. Não esperava dar com a descrença passiva desses olhos. Nem com o silêncio nervoso dele. Nem com a serenidade aparente da sua timidez. Dados que escaparam à sua imaginação. E nem lhe passara pela cabeça que um homem com uma história assim fosse afinal um tímido e que tão mal disfarçasse a sua timidez.
Em sendo a sua vez de olhar, Mariano não o faz de frente, e sim de um modo vago que finge não ter o propósito de a observar. Olha apenas ao redor do rosto dela, dos seus extraordinários olhos verdes, corolas nítidas a sobressaírem do moreno da pele. A sua boca parece demasiado tensa nesse primeiro momento a sós com ela. Há um instante, fugaz, em que os olhos de ambos se cruzam, num puro acaso. Repelem‑se. Queima‑os o contraste entre o verde ofídico dos dela e o amarelo dos dele. A estranheza torna‑se pensativa no rosto dos dois.
João de Melo, Livro de Vozes e Sombras