Nem sempre lembro dos sonhos que faço. (Faço? Tenho participação voluntária nenhuma ali). Uma noite dessas foi assim, o sonho dos meus sonhos: era um abraço tão imprevisto e tão estreitado que tudo ali era imenso, como se toda a alma tomasse corpo; poucas vezes sei assim tão certo o que sou no como sou; um sonho de sempre ali tomava forma; e forma erótica e feliz, plenamente. Não sei de minh'alma sem esse meu corpo, precisamente esse. Acho que a gente pensa, em muito, por conta dos sentidos. Melhor: a alma mesmo é uma concessão, se não uma criação, do corpo.
A razão certamente está com Valéry: a tensão corpo-mundo-o outro, nos define mesmo. Ser alguém de tão mal cicatrizado que, quando estreitado nos braços, mais se dilacera. (¿Que ternura será bastante forte para, no espaço de um sonho, suspender ali toda má memória?). Alma envelhece, domesticada pelos arreios sociais; corpo é coisa mais rebelde – se insurge; e nos define melhor. É especialmente com Montaigne que encontro essa conjunção feliz: a vida é um movimento material e corporal, diz lá; nem sempre a gente segura bem as rédeas. Certo, depois, isso está também em Espinosa: O desejo em nós é misterioso. Excede, seu poder, a consciência que temos dele. Não se sabe o que pode o corpo. Não, hoje ainda, eu sei que não se sabe. Que coisas dormidas um sonho acorda em nós, sabe-se lá. E tudo é tão alegria, tão pra cima.
