08
Fev22
Maria do Rosário Pedreira
A escritora Margaret Atwood, a quem perguntaram se era feminista, respondeu que sim, que se não fosse ela a defender os próprios direitos, quem o faria? Concordo completamente com esta visão, a de as mulheres quererem ter os mesmíssimos direitos dos homens, mas infelizmente há um radicalismo impossível de aturar nos tempos que correm (do tipo: bom ou mau, homem é para liquidar). Um dia destes, um jornal trazia uma notícia sobre os números do ano passado da violência doméstica e aparecia em título: «A violência doméstica fez em 2021 23 mortes: 16 mulheres e duas crianças.» Ora, como até sei fazer contas, aqueles dois pontos irritaram-me, porque 16 + 2 não é igual a 23. Os que faltam são, obviamente, homens; e, só por serem homens, não estão no título. Presumo (mas, reparem, a notícia nunca o diz) que estes homens não mencionados sejam, na sua maioria, os perpetradores que matam as mulheres e depois se suicidam. Mesmo assim, não deixam de ser mortes, pois não? Ou se diz que a violência doméstica fez 18 vítimas (e até podemos aceitar a exclusão dos homens autores dos crimes e vítimas de si próprios), ou se fala em mortes e tem de se incluir os mortos todos, independentemente do sexo. Ou então, tiram-se os dois pontos, põe-se ponto final e escreve-se uma segunda frase a dizer «Destas [mortes], 16 são de mulheres e duas de crianças.» Até pode ter havido alguma mulher que matou o respectivo companheiro, nunca se sabe, mas eu tenho a secreta suspeita de que esta desvalorização imediata do masculino é deliberada e pertence ao ar do tempo. Ora, isso não serve a ninguém.