Obras Inquietas – 51. “Tigre na selva” (1917), Max Slevogt
Arte, Max Slevogt, Erotismo, Impressionismo, Literatura
Nessa semana, na coluna “Obras Inquietas”, eu falei de um quadro do pintor impressionista alemão Max Slevogt. Em “Tigre na selva”, a mistura entre a imprecisão dos movimentos sinuosos de um tigre e o abandono repleto de êxtase da mulher que ele carrega acaba gerando uma forte carga erótica que, ainda que não saibamos colocar em palavras, nos faz perder a respiração. Isso sem contar que Max Slevogt era um grande pintor de tigres e de cenas carregadas de erotismo não-aparente, mas que ensinariam muitos artistas contemporâneos sobre a incrível capacidade de ser pornográfico e escandaloso sem escancarar. Existe coisa muito mais erótica do que genitália, e quem não sabe disso precisa urgentemente voltar para a época do colégio. Boa leitura! “Tigre na selva” (1917), Max Slevogt Possuída pela sinuosidade do tigre, todo o corpo da mulher é medo e entrega. O abandono – o saber se consagrar à volúpia do precipício, o saber desistir da luta – é o mais difícil dos sentimentos, e o mais cruel: nunca se sabe se será possível voltar ao que éramos antes, nunca se sabe se não é tarde demais, fundo demais, dolorido demais. A vítima se entrega à ferocidade do desconhecido e, ainda que exista angústia nesse gesto, também há excitação. O gozo anda muito próximo da morte; o prazer caminha ao lado do desespero. Os cabelos da mulher dançam com o vento, enquanto a selva se rende à sensualidade do tigre que carrega o seu prêmio ofegante. A presa não mais resiste; o predador venceu, e a fúria contida da certeza com que seus passos deslizam pela tinta amorfa do quadro é algo de extrema obscenidade. A violência da cena interrompida momentos antes do seu desenlace – o instante em que o animal, enfim, possuirá a mulher já subjugada – nos deixa na incômoda dúvida do reconhecimento impossível de uma cena que jamais vivemos: somos o tigre vitorioso ou a vítima? O vencedor ou o derrotado? Devemos desistir diante da morte semovente ou encará-la mais uma vez nos olhos antes que ela crave seus dentes na nossa carne e nos confronte com o prazer repleto de indecência que mora no primitivo que não conseguimos entender? Temos medo das sombras e segredos que moram no fundo do abismo da entrega. Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/04/obras-inquietas-51-tigre-na-selva-1917-max-slevogt/ Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo
Texto originalmente publicado em Homem Despedaçado
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