Fotografia da minha autoria

Tema: Livros adaptados a cinema ou televisão

A minha rotina funciona muito bem com listas. E este método organizacional é transversal a várias vertentes, incluindo as de lazer. Por isso, criei uma série escrita de obras literárias para comprar e para ler. De séries para acompanhar. De filmes para descobrir. E é desta maneira que vou sendo capaz de gerir expectativas e de perceber o caminho que pretendo delinear. Assim, para o primeiro tema, deste ano, do The Bibliophile Club, optei por acolher Margaret Atwood, uma autora que figurava no topo das minhas prioridades.

A História de Uma Serva é uma distopia que nos inquieta profundamente. E um aspeto que me impressionou foi a falsa leveza do discurso, como se a realidade descrita não fosse marcada por decisões extremistas, atos de violência - psicológica e afetiva, sobretudo - e uma liberdade ausente. Transmitindo mentalidades conservadoras, reconhecemos tempos antagónicos, com traços de isolamento. Em simultâneo, há uma visão muito vincada da sociedade e uma projeção de futuro assustadora, pela brutalidade camuflada. É por isso que toda a componente emocional parece desligada, distante, fria, quase como se fosse errado sentir, porque denota-se um certo conformismo, que impede uma rebelião, para garantir alguma segurança e estabilidade no meio de tanto caos.

O maior choque desta narrativa é, claramente, o papel atribuído à mulher. E se, por um lado, o seu valor é diminuto, estando privada de bens essenciais e de oportunidades, por outro, é notório o quanto é imprescindível para a sobrevivência da humanidade. Logo, a figura feminina fica reduzida a uma única tarefa. Numa clara estratificação social, as «mulheres férteis são obrigadas a conceber filhos para a Elite». E isso não é só uma violação de direitos e privacidade, é, também, um sinal de alerta, que nos permite refletir no impacto da gravidez no seio familiar - e, ainda, na urgência de abraçar este estado de graça, na irascibilidade de falhar na sua função e na dor de gerar uma criança que nunca será sua. No mesmo compasso temporal, expõe uma sequência de dilemas morais, o lado errado do feminismo, o peso das memórias e da ausência de amor. Para além da rigidez do trato, balanceada por uma fugaz manifestação de empatia, é praticamente palpável o fosso interpessoal. E a solidão interior.

Este livro é feito de silêncios. Mas silêncios que nos gritam a opressão imposta por um sistema controlador e pelo medo. Embora exista uma certa angustia ao desvendar o desenvolvimento da ação, a leitura é estimulante, uma vez que ativa todos os nossos sentidos e o nosso espírito crítico, analisando o fanatismo religioso, a ignorância, a subserviência, a desconfiança e o perigo de desimpedirmos a permissividade, atendendo a que deixaremos de questionar o que consideramos errado e que, posteriormente, entraremos numa espiral de dormência, ao ponto de anularmos a nossa individualidade. Num dialeto machista e preconceituoso, evidencia o lado descartável do ser humano, o sofrimento e a falta de união, distorcendo valores e banalizando ações repugnantes. A alternância entre o passado e o presente é a maior prova dos muros que se reergueram e do ambiente tóxico, tenso e alarmante que se vive. Portanto, é percetível que Margaret Atwood não publicou uma obra para entreter, mas para nos levar a pensar, estruturando «uma bandeira contra as desigualdades de género».

A História de Uma Serva é, então, «um hino à resiliência». E, com um final em aberto, existem inúmeras questões à espera de respostas. Nesta viagem intensa, dramática e abusiva, há passagens que nos magoam como balas, até porque demonstram a fragilidade da nossa condição e o quanto a vida pode virar-nos do avesso, separando-nos de tudo o que conhecemos. Através de uma leitura relacional, que mexe na ferida, percebemos que, infelizmente, Gileade não é um mundo assim tão distante. Só muda a cor da indumentária que exibimos na rua.

Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Aprendemos a sussurrar quase sem som. Podíamos estender os braços na semiobscuridade, quando as Tias não estavam a ver, e tocar nas mãos umas das outras através do espaço. Aprendemos a ler os lábios, com as cabeças pousadas na cama, viradas de lado, a olhar para a boca umas das outras. Era desta maneira que trocávamos nomes...» [p:12];

«A cozinha cheira a fermento, um cheiro nostálgico. Lembra-me outras cozinhas, cozinhas que foram minhas. Cheira a mães; embora a minha não fizesse pão. Cheira a mim, em tempos idos, quando fui mãe» [p:59];

«Quero-a de volta. Quero tudo de volta, quero as coisas como eram. Mas é escusado, este querer» [p:141];

«O contexto faz toda a diferença; ou era a maturidade? Uma coisa ou outra» [p:220];

«- Hoje vou-te levar a sair.

- Sair? - É uma expressão arcaica. De certeza que já não há sítio nenhum onde um homem possa levar uma mulher, numa saída.

- Sair daqui - diz ele» [p:262].

// Disponibilidade //

Nota: O blogue é afiliado da Wook e da Bertrand. Ao adquirirem o[s] artigo[s] através dos links disponibilizados estão a contribuir para o seu crescimento literário - e não só. Obrigada ♥