



«Com um pequeno intervalo de semanas, rompia de Bristol nova investida contra o romantismo. Eça de Queirós aproveitava-se do ádito das obras, a que o chamavam como padrinho, à laia de plataforma de tiro. No Brasileiro Soares, primeiro, logo a seguir nos Azulejos do conde de Arnoso. Qualquer dos livros roçava pela mediocridade, mas tratava-se de amigos, de pessoas de tom, e Eça não sabia resistir à solicitude cortesã.
Pois nesse prefácio, a certa altura aponta baterias ao campo inimigo. Eça não era um polemista na vera acepção da palavra. Para o polemista, tal como o concebiam ao tempo, todo o floreio externo se damasquinava de zombaria, troça, ridicularização e verrina. Estes efeitos estavam fora de toda a possibilidade para um temperamento como o dele. No que levava a palma, era na ironia. Mas a ironia não suporta o embate do sarcasmo. A ironia é por sua natureza monovalente. Eça poderia escrever páginas superiores, sobre as quais o adversário acabasse por chafurdar na sua mesquinhez e insignificância, vencido e humilhado. Mas para a esgrima literária, tal como a praticava Camilo a cada passo, florete, partasana, moca se necessário fosse, não contassem com ele. Quando saía a combater fazia-o inopinadamente; despejava a sua aljava, onde havia graça, chiste, epigrama, agudeza, formas cromadas da ironia, e metia-se em copas. A farsa, a sátira, a descompostura não sabia o que fossem. Francamente combativo, jamais a sua combatividade o obrigou alguma vez a recarregar o adversário. Nisto era diferente de Camilo como da noite para o dia.»

Escrevia Eça de preliminar a Azulejos:
«Não temes que o teu livro, flor de literatura, casta de aroma e de cor, seja tratado como um desses frutos podres que ama o naturalismo? Frutos medonhos que têm depravado o paladar das multidões, a um ponto que só eles apetecem e só eles se vendem, e já ninguém vai feirar aos gigos onde vermelham os frescos morangos acabados de colher no morangal do romantismo!? (...)»
«Mas como tu sabes, amigo, nesta capital do nosso Reino permanece a opinião cimentada a pedra e cal, entre leigos e entre letrados, que naturalismo ou, como a capital diz, realismo -- é grosseria e sujidade! Não tens tu reparado que quando um jornalista, copiando no seu jornal com pena hábil a parte da polícia, que é o roast-beef da imprensa um bruto que proferiu palavras imundas, nunca deixa de lhe chamar com uma ironia cujo brilho raro o enche de justo orgulho -- discípulo de Zola? -- Não tens notado que nos periódicos, quando se quer definir uma maneira especial de ser torpe, se emprega esta expressão consagrada -- à Zola? Não tens tu visto que, ao descrever um caso sórdido ou bestial, o homem da gazeta acrescenta sempre com um desdém grandioso: para contar bem como tudo se passou precisávamos saber manejar a pena de Zola? Assim é, assim é! Estranha maravilha da asneira! O nome do épico genial de Germinal e da Oeuvre serve para simbolizar tudo o que em actos e palavras é grosseiro e imundo! (...) Também em França e Inglaterra, há quinze anos, houve a mesma opinião sobre o naturalismo; também gritaram grosseria, sujidade os néscios e os malignos ao aparecerem essas vivas, rijas, fecundas, resplandecentes criações do Assomoir e de Nana.»



«De tal sorte, que assistimos a esta cousa pavorosa: os discípulos do idealismo para não serem de todo esquecidos agacham-se melancolicamente e com lágrimas represas bezuntam-se de lodo! Sim, amigo, estes homens puros, vestidos de linho puro, que tão indignadamente nos arguiram de chafurdarmos num lameiro vêm agora pé ante pé enlabuzar-se com a nossa lama! Depois soerguendo bem alto a capa dos seus livros, onde escreveram em grossas letras este letreiro -- romance realista -- parece dizerem ao público, com um sorriso triste na face mascarada: -- Olhem também para nós, leiam-nos também a nós... Acreditem que também somos muitíssimo grosseiros e que também somos muitíssimo sujos.»
(continua)