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| Fotografia da minha autoria |
Gatilhos: Conteúdo Sensível
A imagem que vemos refletida no espelho parece desfasada da realidade, uma vez que não nos vemos a nós: vemos os padrões dos outros, vemos aquilo que achamos que precisamos de ser ou, pelo contrário, aquilo que foge da norma, como se fossemos seres estranhos. E o mundo vai esmorecendo por dentro, porque tentamos preencher necessidades que não são as nossas, mas que nos impõem de inúmeras maneiras.
Desassossego, uma aposta da RTP Lab, centra-se em três protagonistas: Laura, uma influencer a acusar a pressão do universo construído nas redes sociais, procurando afastar-se dele; Ana, uma adolescente com complexos em relação ao seu corpo, ao seu peso, a tentar corresponder a uma imagem idílica; e Vasco, um ator desempregado, a fazer um part-time enquanto entregador de pizzas, a tentar juntar dinheiro para sobreviver. Aparentemente, são três histórias distintas, mas acabam por se cruzar.
A linguagem, as imagens e as temáticas podem ser consideradas perturbadoras, ferindo a sensibilidade dos espectadores, uma vez que é uma série focada em distúrbios alimentares, ansiedade, suicídio, luto e problemas financeiros, sem haver filtros, por isso, há um aviso prévio para que os episódios não sejam vistos por um público mais jovem sem acompanhamento parental. Neste sentido, estendo a ressalva a qualquer pessoa que não se encontre num lugar bom, já que pode ser um gatilho.
Achei Desassossego muito interessante e credível, atendendo a que espelha a solidão mascarada pela quantidade de seguidores, o recurso a soluções rápidas que se revelam ainda mais prejudiciais, as ligações que se quebram depois de uma perda dilacerante, o vazio, o desencanto, a culpa, a vergonha e os limites que se ultrapassam em prol de um objetivo maior, quando não parece existir mais nenhuma saída. Laura, Ana e Vasco sentem na pele as dificuldades do caminho que escolheram, daquilo que a sociedade lhes exige e das oportunidades que aparentam escassear para cada um.
Expondo o que os deixa vulneráveis, mostra o impacto de não se sentirem confortáveis na sua pele, as consequências de estarem deslumbrados ou a suportar vazios e serve de alerta para a necessidade de saber pedir ajuda, sobretudo, dos profissionais certos, porque os amigos são um colo ótimo, mas há limitações que não conseguirão transpor - nem têm de o fazer. Acho que há pontos que poderiam ter sido melhor explorados, mas é um excelente ponto de partida para abordar temas tão atuais e urgentes, até porque condicionam a forma como nos observamos e como pretendemos viver.
