ilustração/Tom Gauld
Metáfora da vida moderna, a HQ do ilustrador escocês acompanha o resignado patrulheiro da lua
Matheus Lopes Quirino
A lua vai se esvaziando aos poucos. Já com poucos habitantes, o lugar é um posto espacial da Terra, os que ficam, são obrigados a conviver com máquinas que passam a ocupar cargos humanos. E é com essa fina tensão que o leitor precisa lidar desde o primeiro desenho: ser deixado aos poucos. Em “Guarda Lunar”, o policial (sem nome) percorre o terreno irregular do satélite da terra numa ostensiva patrulha monótona, todos os dias.
Quando um alerta lhe é enviado, sua paz tampouco é fustigada. As ocorrências não passam de problemas comuns, como uma moça perdida ou um cachorro que escapou de sua dona. O guarda lunar, personagem serena, empenha-se muito em resolver da melhor maneira suas tarefas, mas logo percebe que está ficando à míngua. Metáfora da condição humana, cujo isolamento social e a aglomeração virtual intensificam os sintomas da solidão, Gauld criou uma narrativa futurística, embora o sentimento ali retratado já faça parte do presente.
Na trama, aos poucos, com os já seletos habitantes da lua, o guarda-lunar encontra esses conterrâneos que lhe comunicam partida. Afinal, eles têm família no planeta Terra, estão cansados da rotina. Prós: Morar na lua é lindo, com uma vista deslumbrante da terra, um céu infinito sob o pano inalcançável de estrelas incontáveis. Sem violência, sem discriminações, sem aquecimento global ou líderes loucos, tampouco guerras ou epidemias. Entretanto, a solidão é o que pega. O guarda-lunar é um homem extremamente solitário. Ele parece saber disso, mas suas atribuições estão em primeiro lugar.
Ao ser recusada sua transferência, o homem se resigna e passa a frequentar um café, logo após ter perdido a vaga do oitavo andar de seu predinho, uma espécie de moradia do futuro feita com contêineres (que agora tem só dois, devido às evasões). No lugar de humanos, máquinas ocupam os espaços, como no mercadinho 24 horas. O Museu Lunar fecha as portas. Os espaços estão vazios e é possível imaginar um silêncio longo e pausado entre as telas, como nos filmes de ficção científica que ambientam a lua. Como alento, abre um café e, para surpresa do nosso herói, uma moça trabalha no local.
Em “Guarda Lunar”, o célebre ilustrador da revista New Yorker, Tom Gauld eleva a categoria da solidão à Lua, não para chover no molhado da perspectiva de um astronauta perdido no espaço, mas para discutir o êxodo naquele projeto perdido, ficcional, que foi a ocupação da lua — e seus desdobramentos a partir da perspectiva da maior autoridade ali, o Guarda Lunar. Em referência às errâncias das histórias d cavalaria, Gauld coloca a máquina como algoz, empecilho, ainda que sutil, para sua aproximação com a outra única habitante.
Influenciado pela geração de ouro de cartunistas da revista The New Yorker, como Jean Jacques Sempé, o traço de Gauld esbanja ternura. Como as estrelas do universo, o cartunista brilha na Graphic Novel dois anos depois do lançamento bem-sucedido de “Golias”, pela mesma editora Todavia. Hoje, Gauld é um dos quadrinistas mais respeitados do metiê. Irlandês, ele colabora com publicações importantes do outro lado do atlântico, como o jornal The New York Times.
Todos temos dias de guarda-lunar, mesmo com os pés fincados na terra, esse geoide irregular repleto de desventuras e desesperanças. Sucumbidos pela solidão das grandes cidades, das redes antissociais e da avalanche de distúrbios mentais que acometem uma já apelidada “Geração Rivotril”, esta é a Terra. Ao traçar uma historieta minimalista, repleta de simbolismo ao escolher a Lua como cenário, Gauld criou uma das melhores Hqs dos últimos anos, sem sombra de dúvidas. Louvável seja seu trabalho, e que ele continue com a cabeça no mundo da lua.
Tom Gauld
Guarda Lunar
editora Todavia
2021
93 páginas
Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino